São Paulo – Histórias de superação de tirar o chapéu foram o foco da pesquisa realizada durante nove anos pela psicoterapeuta e empresária Claudia Riecken, que se dedica ao estudo científico em neurologia do comportamento. Ela esmiuçou traços da personalidade de mais de 180 ?sobreviventes? – garimpados em vários continentes – e revela as motivações que os levaram a dar a volta por cima, em grande estilo. Essas experiências estão no livro SobreViver: instinto de vencedor (Editora Saraiva).

Tem o caso do paulista e modelo Ranimiro Lotufo, que perdeu uma das pernas em um acidente de parapente, mas foi além de seu limite físico e continuou desfilando e praticando esportes radicais. O americano Kenneth Baldwin, casado e pai de uma filha, tentou suicídio ao se jogar da famosa ponte Golden Gate, em São Francisco, e, contrariando as estatísticas, conseguiu sobreviver e mudou o rumo de sua vida. A psicóloga húngara Edith Eva Eger, sobrevivente do campo de concentração nazista de Auschwitz, é hoje referência mundial em questões relacionadas à paz. Há também a virada da empresa paulistana TMS, que pegou fogo, mas seus sócios conseguiram reerguê-la após perda total do patrimônio.

A partir dos depoimentos, a autora traça características comportamentais desses sobreviventes e oferece caminhos aos leitores. Claudia, aliás, é a criadora do método Quantum, teste comportamental que já foi dirigido a mais de 200 mil profissionais, de empresas nacionais e estrangeiras. Ela é também presidente da consultoria Quantum Assessment, e atende pacientes em seu consultório: ?Nossa capacidade de sobrevivência é inata. Faz parte do ser humano. Apesar de alguns serem mais capazes do que outros de se restaurar após dramas pessoais, é possível, sim, desenvolver algumas atitudes. Concentração, criatividade, seriedade são alguns dos recursos, mas não há regra única para sobreviver. Quem seguir uma receita, morrerá. Porque viver é uma arte com muitos elementos, possibilidades e necessidades diferentes para cada realidade. Vejo, no entanto, que muitos sucumbem ao problema de bobeira, pois não percebem que existem escolhas?.

Claudia trata de uma expressão que está na moda e continua sendo abordada em livros: resiliência. Termo usado na Física, que significa ?energia armazenada em um corpo alterado elasticamente que faz, por exemplo, uma almofada retornar ao seu estado original após ser pressionada e afundada.? A pessoa resiliente, portanto, é capaz de se restabelecer após sofrer pequenos e grandes reveses por conta de sua força interna.

Ela observou que, para o ?sobrevivente?, a maneira de reagir é mais importante do que o problema em si. ?Ou o infortúnio serve como um caminho de travessia ou como motivo para se vitimar?, diz Claudia, de 40 anos. ?Por isso, recusar-se a ser uma vítima é o ideal?.

Persistência é o principal traço dos sobreviventes

(AE) – A própria autora superou crises e percalços, mas nada que se compare aos dramas vividos por seus entrevistados. Ela encarou uma crise financeira brava, com três filhos sob os seus cuidados, um deles recém-nascido. Mas conseguiu dar início a um negócio bem-sucedido, hoje reconhecido internacionalmente. Como uma boa resiliente, nunca desistiu nem se conformou. Fez parte também da sua história a restauração da vida afetiva e familiar, o que, para Claudia, é fundamental para se obter prazer e sucesso pessoal em qualquer coisa. E como todo ?sobrevivente?, encontrou suporte na família e numa relação afetiva duradoura, com seu atual companheiro, o empresário Jacy Martins Lage.

As personalidades de ?sobreviventes? têm alguns pontos em comum. A autora enumerou 12 deles. Entre os principais, está a persistência. São pessoas que procuram fazer com que as coisas funcionem. Levam um tombo, choram, mas levantam e continuam andando. Mantêm um olho no objetivo e não arredam o pé. O humor é outro ponto forte – artifício usado sinceramente para se sentir bem. Vai muito além do ?pense positivo?, que Claudia faz questão de criticar. Para ela, o humor é uma atitude interna, da alma, não é um sorriso falso nos lábios.

Outro traço comum: aceitar a adversidade como oportunidade. É saber tirar o melhor do pior. Ser otimista. Não significa, porém seguir a infantilização do ?método Poliana?, famosa personagem que transformava toda desgraça em algo ?bom?. Em sua análise, Claudia observou também que os resilientes são paradoxais. São sérios e bem-humorados, autoconfiantes e autocríticos, organizados e bagunceiros. Não são 8 ou 80. Essa é a base da flexibilidade: poder acessar traços pessoais diversos. Como lembra a autora, eles também não estão preocupados em parecer bonzinhos, nem fazem o esperado. E são muito criativos.