Foto: Aliocha Mauricio/O Estado
Juliana: o que interessa mesmo é a capacidade da pessoa.

O velho título de sexo frágil definitivamente está cada vez mais longe da realidade das mulheres. Primeiro, elas deixaram as funções de casa para trabalhar fora e, posteriormente, passaram a ocupar gradativamente cargos ditos masculinos. Apesar de muitas vezes os salários ainda não se equipararem e o preconceito ainda existir, tamanha conquista, segundo especialistas, deve seguir a tendência de ser ampliada em proporções gigantescas. Isso porque as mulheres buscaram a superação quando perceberam que tinham de competir com os homens e sobreviver em meio ao acúmulo de funções. De quebra, descobriram que são donas de qualidades diretamente relacionadas a resultados, essencialmente o que busca o mercado.

As constatações têm explicação histórica. Antigamente, quando a força física era valorizada em detrimento do conhecimento, os homens saíam – e de certa forma até hoje saem – na frente das mulheres. ?Mas no começo do século passado, quando as fábricas foram crescendo e houve falta de mão-de-obra, as mulheres foram recrutadas para exercer trabalhos rotineiros e repetitivos?, explica o headhunter e presidente do grupo de capital humano De Bernt, Bernt Entschev. Foi o passo chave. ?Daí perceberam-se suas habilidades e viu-se que tinham capacidade?. Ele explica que, a partir daí, a tecnologia começou a substituir gradativamente os trabalhos manuais, o que resultou na sobra de mão-de-obra. ?Elas ficaram com menos empregos e mais disponibilidade de tempo. Partiram, então, para a educação e começaram a disputar mais cargos?, lembra.

O resultado é que, hoje, no Brasil, as mulheres têm, em média, dois anos a mais de escolaridade que os homens e vêm ocupando cargos de liderança nas empresas, se tornando competidoras em potencial. ?À medida que se tenha mais pessoas preparadas e mais mecanização, ou seja, menos necessidade de força física, vão sobrar cargos inteligentes. E quem vai ganhá-los são os mais preparados, ou seja, as mulheres?, prevê Entschev. A constatação lógica, a partir daí, é que hoje já quase não existem mais funções exclusivas de homens ou de mulheres – elas foram para o mercado de trabalho e eles passaram a dividir as funções de casa.

Nesse caso, a soma das habilidades de cada um dos sexos tem conseqüências extremamente positivas. ?A exigência vai ser cada vez mais por cabeças racionais, como para as áreas de engenharia e planejamento de produção, onde aparentemente homens têm mais vocação, e ao mesmo tempo por pessoas com funções e posições predominantemente emocionais, como por exemplo motivação, chefias e liderança?. Há, no entanto, mulheres avançando para áreas reconhecidamente masculinas, como, além da área de exatas, cargos de gestão nas empresas. ?Muitas pessoas achavam que as mulheres não resistiriam a pressões psicológicas e por resultados e que, em função da emocionalidade, não conseguiriam tomar decisões racionais envolvendo pessoas. Mas, à medida que foram crescendo, também se tornaram mais aptas a isso?, atesta o headhunter.

Apesar de tudo isso, é inegável que exista ainda o preconceito em diversos setores do mercado, principalmente pelo fato de a média salarial feminina ser 12% menor que a dos homens no Brasil. ?Mesmo assim, muitas empresas têm equiparado os salários. Claro que, num País como o nosso, existem empresas no século 22 e outras ainda em 1880, antes da libertação dos escravos. Mas este tipo tende ao desaparecimento. O futuro promete tratamento justo e igualitário, em que se compensam resultados, que serão bem-vindos independente de onde – por parte de homens ou mulheres – eles vierem?, antecipa.

Profissões exclusivamente masculinas em extinção

Jaqueline Guglielmi e Rossana Potier fazem parte da modesta estatística de menos de 1% dos pilotos do Brasil. E apesar de serem quase exceção à regra, não se intimidam: garantem ser bem vistas pelo grande contingente de homens com que trabalham. ?A partir do momento que você mostra competência, existe respeito?, enfatiza Jaqueline, filha de um comandante aposentado.

O que causa estranhamento, complementa Rossana, é que a aviação, por ser profissão que envolve riscos, nem sempre é vista como área para mulheres. ?Mas isso muda no momento em que você demonstra que não é frágil?, acredita. Realmente, não é para qualquer uma. Além do preconceito – que enfrentam por parte de homens e ainda mais de mulheres -, elas têm de fazer de tudo, desde empurrar e lavar aviões até pilotar e dar instrução. ?Acho que fui a única mulher a me inscrever quando consegui meu primeiro emprego, no Aeroclube de Joinville. Eles queriam uma instrutora?, lembra Rossana. Hoje, ela é a primeira do sexo feminino em 75 anos do Aeroclube do Paraná.

O porquê do sucesso? ?A mulher é versátil, faz de tudo?, explica Rossana. ?Lembro de meu instrutor dizer que, ao ensinar, queria que seus alunos pilotassem com a sensibilidade de uma mulher?, complementa Jaqueline. O que elas acham, no entanto, é que além da falta de estímulo para a profissão, o que faz ter ainda pouquíssimas mulheres nesse meio é a correria e o excesso de responsabilidade: ?A aviação sobrecarrega, exige dedicação total. Nem sempre a mulher consegue conciliar com os serviços de casa. Além disso, às vezes o marido tem de entender que você vai viajar durante uma semana e até dividir quarto com homens?, confidencia Rossana.

Graxa

Assim como as pilotos, a jovem Elidimara Musial também não se deixa intimidar pelo sexo: estuda mecânica e elétrica de automóveis. É a única da instituição onde faz os cursos, o Cetep, em Curitiba. ?Carros sempre chamaram minha atenção?, recorda. Com estímulo do pai, resolveu tornar o interesse em profissão: ?Hoje amo o que faço?.

Nas experiências de oficina, lembra de ter sofrido preconceito, com um homem dizendo que não poderia confiar se arrumasse o carro. ?Tenho certeza que isso ainda vai se repetir. Mas serei profissional. Sempre acreditei que, se homem pode, mulher também pode?, enfatiza a estudante, que vê na habilidade o grande trunfo do sexo feminino: ?Nada como o jeito e a paciência feminina. Hoje a gente tem ferramentas para ajudarem com a força. E também não me importo de sujar as unhas de graxa; é só lavar que sai?, diz, despreocupada. (LM)

Livros didáticos mostram diferenças

Como as crianças e adolescentes vêem essa relação? A pesquisadora Lindamir Salete Casagrande, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Relações de Gênero e Tecnologia (GeTec) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), acredita que, na maioria dos casos, desde a escola homens e mulheres são apresentados em mundos separados. Ela chegou à conclusão por meio do trabalho que desenvolveu analisando 18 livros didáticos de Matemática de 5.ª e 6.ª séries. A proposta era verificar, em enunciados e ilustrações, como apareciam mulher e homem em diversas categorias.

Uma delas, referente ao mercado de trabalho, mostrou que nos livros a mulher aparece bastante, mas em poucas profissões: ?Cozinheira, artesã, professora, além de profissões que requerem menos conhecimento, que podem ser realizadas dentro de casa ou são como extensão do lar?, destaca Lindamir. Porém nos exercícios referentes a ciências, elas não aparecem nos enunciados, mas apenas em duas ilustrações; uma delas, como auxiliar de um homem em um laboratório. ?Já quando se trata de família, a mulher aparece sempre com forte presença. Nessas ocasiões, o homem sempre aparece como o provedor do lar?, ressalta a pesquisadora. Além disso, as celebridades mostradas nos livros didáticos, como políticos e artistas, além de personagens históricos e esportistas famosos, vêm sempre embutidas na figura masculina.

?Existe, mesmo nos livros didáticos, diferenciação entre mulher e homem. Essa representação acaba por induzir a imagem de que homem e mulher estão separados, que não interagem, já que os papéis aparecem como diferentes e hierarquizados?, avalia Lindamir. Com isso, acredita, a mulher raramente é estimulada a ingressar nas carreiras que envolvem tecnologia, uma vez que a desconstrução dessa diversidade, que deveria ser feita pelo professor, raramente é observada.

A engenheira de computação Juliana Schwartz, no entanto, acredita que pelo menos os adolescentes que utilizam a internet já têm adquirido visão um pouco diferente, segundo suas pesquisas. ?Muitos ainda conservam aquela idéia antiga de que as mulheres têm de trabalhar em casa, em funções que não exigem força. Mas a maioria acredita que o que interessa mesmo é a capacidade da pessoa?, constata. Ela, que é exemplo da referida diferenciação, apesar de confirmar o preconceito, é otimista: ?Espero que essa geração consiga que não haja mais tanta discriminação, fazendo valer o que demonstram, de que o sexo já não define tanto o que querem ser, e sim a competência?. (LM e Nájia Furlan)

Autonomia excessiva causa conflitos

Tantas mudanças, no entanto, geram conflitos sociais e até de papéis entre homens e mulheres. A socióloga Maria Olga Mattar confirma que as mulheres mudaram muito no que se refere ao trabalho durante as últimas décadas, agregando valor independente do homem que está ao seu lado e adquirindo autonomia. O problema é que tanta auto-suficiência acaba resultando em problemas naquilo que para muitas ainda é prioridade: a vida familiar. ?Eles podem estar ligados ao status profissional. Não que seja um mal para a família, mas é a maneira como lida com seu posicionamento que pode criar problemas para a mulher. Às vezes, sua auto-estima extrapola e cria choques no casal?, observa.

O equilíbrio é desafio porque as mulheres ainda são maioria em acumular duplas jornadas; trabalham fora durante o dia e, à noite, em casa. Soma-se a isso o fato de o Brasil ainda ser uma sociedade machista. Maria Olga é enfática: ?A maior parte dos maridos brasileiros ainda prefere a mulher em casa, à disposição, o que é diferente em países não tão machistas como o nosso?. Um exemplo são os americanos, que há décadas ajudam a mulher na cozinha e com os filhos. ?Os latinos achavam coisa de maricas. Isso vem mudando há pouco tempo por aqui; hoje podemos dizer que mais casais já estão dentro dessa nova cultura, em que cada um tem seu papel e divide as tarefas, inclusive com os filhos.? Em alguns lares, aliás, os papéis já se inverteram, com as mulheres saindo para trabalhar e os homens ficando em casa. (LM)