Foto: Ciciro Back/O Estado

Programa Prevenção e Promoção da Vida, do MEC, leva o aluno a analisar os prós e os contras e a, partir disso, tomar uma decisão.

A adolescente E.M., 15 anos, tem pais super-religiosos e sempre ouviu que a vida sexual deve começar só depois do casamento. No entanto, há quatro meses ela transa com o namorado, mas a família não sabe de nada. Prova de que simplesmente proibir não adianta muito. Cientes desta realidade, algumas escolas públicas de Curitiba começaram um trabalho de orientação, fazendo os jovens refletirem sobre as conseqüências de uma vida sexual ativa. Um dos resultados visíveis foi a redução do número de meninas grávidas. Além disso, muitos deixaram de se sentir pressionados pelo fato de serem virgens e estão deixando para iniciar a vida sexual mais tarde.

Desde 2003, o Ministério da Educação implantou o Programa Prevenção e Promoção da Vida em algumas escolas do País, sendo 20 em Curitiba. O trabalho de educação sexual faz parte do projeto político-pedagógico de cada unidade e todos os professores podem abordar o assunto. Num primeiro momento, é feito um trabalho de valorização da auto-estima e do próprio corpo. Os alunos discutem textos, filmes e fazem peças de teatro. Também são instigados a pensar no futuro e como uma gravidez precoce poderia interferir. ?Eles fazem até simulação do custo financeiro de ter um filho. Teriam que parar de estudar para trabalhar?, cita a professora que coordena o projeto em duas escolas da rede estadual, Thaís Manikoswski. As doenças sexualmente transmissíveis também são discutidas.

Segundo Thaís, o programa vem apresentando bons resultados porque não proíbe nem incentiva que o adolescente comece sua vida sexual. ?O aluno é levado a analisar os prós e os contras. A decisão fica por conta dele?, comenta. A professora já conseguiu ver resultados práticos do trabalho. Conta que, no Colégio Estadual D. Branca do Nascimento Miranda, cerca de 500 alunos fazem ensino médio no turno da manhã e todos os anos pelo menos quatro adolescentes apareciam grávidas. ?Este ano temos apenas uma, mas ela casou e vive uma situação diferente?, relata a professora.

A coordenadora do programa na rede estadual, Célia Mewes, da Secretaria Estadual de Educação, diz ainda que já foi observado que alguns jovens decidiram deixar para mais tarde o início da vida sexual. A adolescente A.M. explica que, munida de informações, fica mais difícil se deixar levar pela pressão dos outros e pelo ?peso? de ainda ser a virgem da turma.

A.M. conta que resolveu iniciar a vida sexual porque tinha um parceiro estável. Como em casa ela não pode contar para os pais que já dormiu com o namorado, encontrou no projeto ajuda para se proteger de uma gravidez precoce e também de doenças sexualmente transmissíveis. Lembra que uma vez manteve relação sexual sem camisinha porque não estava em seu período fértil. ?Mas aprendi que posso pegar uma série de infecções?, fala. Quando um colega a procura para falar sobre o assunto, diz que cada um tem que ir pela própria cabeça, ter um relacionamento firme com alguém e avaliar bem a responsabilidade que vem com o início da vida sexual.

No colégio onde estuda, agora ela faz parte do grupo de jovens que está sendo capacitado para disseminar o conhecimento – chamados de multiplicadores. O curso é ministrado por profissionais da Secretaria Estadual de Saúde e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A idéia surgiu depois que a professora Thaís participou de um curso em Moçambique, onde os alunos é que são os protagonistas do projeto. Eles vão promover atividades formais, como concursos de cartazes, e também vão orientar os colegas em conversas informais.

Influência do erotismo na televisão

A excessiva programação erótica da televisão vem contribuindo para que as crianças e adolescentes despertem cada vez mais cedo para as questões envolvendo a sexualidade. Por outro lado, muitos pais não acompanharam as mudanças e evitam o assunto em casa. Para alguns, proibir já resolve o problema. No entanto, a grande quantidade de adolescentes grávidas e jovens com aids mostram que a atitude está longe de ser a mais correta. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), desde 1984 já foram registrados no Estado 407 casos de crianças e adolescentes na faixa etária de 10 a 19 anos, num universo de 15.937 casos. Parte deles pegou a doença através das relações sexuais sem proteção.

Segundo o sexólogo Marco Gubert, que atua há 24 anos na área e trabalha na Clínica Androclin, não adianta os pais fecharem os olhos para o problema, fazendo de conta que ele não existe. Ele ressalta que os jovens estão começando a vida sexual mais cedo, aos 14 ou 15 anos. Se não estiverem bem informados, podem ser surpreendidos por doenças e até por uma gravidez precoce. O sexólogo ressalta que só a escola não dá conta de educar os adolescentes, mesmo porque muitas ainda não desenvolvem projetos nesta área, abordam o conteúdo de modo pontual.

Segundo Gubert, a sexualidade precoce é uma conseqüência da modernidade, sendo estimulada principalmente pelos meios de comunicação, que em sua programação diária fazem constantes apelos sexuais. Muitas vezes, acrescenta, a cabeça do jovem se antecipa às mudanças do próprio, complicando ainda mais a passagem pela adolescência. O apoio da família nesta fase é muito importante. Para Gubert, os pais devem ter equilíbrio na hora de conversar com os filhos e se a dificuldade for muito grande, devem procurar ajuda de um profissional. ?A ausência de informação aguça a curiosidade. Se não consegue em casa, consegue na rua, com amigos, na internet e pode não ser a mais correta?, comenta. Outro conselho é não tratar o sexo como algo feio e proibido, o que pode trazer problemas futuros para a vida sexual. (EW)

Objetivo da Seed é estender projeto para toda a rede

Foto: Ciciro Back/O Estado

Thaís Manikoswski: distribuição de camisinhas no Colégio Dona Branca apresentou redução.

A Secretaria Estadual de Educação (Seed) está trabalhando para estender o projeto para todas as escolas da rede. Segundo a coordenadora do Programa Prevenção e Promoção da Vida, Célia Mewes, 97% das escolas desenvolvem atividades relacionadas ao tema. Mas elas ainda ocorrem de forma pontual.

A secretaria vem elaborando um projeto político-pedagógico que vai garantir ações durante todo o ano em todas as escolas de rede. Além disso, até o fim do ano professores dos grandes centros, como Londrina, Maringá, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa e Paranaguá, serão capacitados para implantar o projeto.

Além de orientar os alunos, o programa também disponibiliza camisinhas. No início, houve muita polêmica, mas Célia diz que agora os pais entenderam como funciona o projeto e a sua importância. ?Não distribuímos. Disponibilizamos, é diferente. Antes de pegar a camisinha, o jovem já recebeu todas as informações que precisava?, compara. Segundo ela, não adianta ter a informação se não tiver como se proteger. No Colégio Dona Branca, são distribuídas cerca de 50 por mês. No início, o número era bem maior. O motivo da redução ainda está sendo analisado. Pode significar que muita gente pegava apenas para conhecer; menos gente está começando cedo a vida sexual ou até que os jovens estão deixando de usar. ?Estamos estudando a situação?, comenta a professora Thaís Manikoswski, que coordena o projeto na escola.

A Seed também tem em seu site um programa com orientações para os alunos e professores. Tem até um programa onde os jovens simulam várias situações que podem ocorrer em uma festa. Elas estão relacionadas a namoro, sexo, drogas. ?Os adolescentes escolhem o que vão fazer e têm como resposta as possíveis conseqüências para seus atos?, aponta Célia. O Programa Prevenção e Promoção da Vida também aborda temas relacionados a drogas e a relação entre gêneros. (EW)