Israel acusou hoje o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, de parcialidade política em uma investigação sobre a Síria, provocando uma dura resposta do chefe em fim de mandato da agência nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU). O episódio ocorreu durante uma reunião a portas fechadas da comissão de 35 países que dirige a entidade. O delegado israelense Israel Michaeli criticou ElBaradei por pedir repetidamente ao Estado judeu que coopere com as investigações sobre atividades nucleares supostamente ilícitas da Síria.

Michaeli também acusou ElBaradei de se recusar a se reunir com funcionários israelenses para debater a questão. Diplomatas presentes relataram que ElBaradei rebateu de forma furiosa as acusações de Michaeli. “Não venha você nos dar lição de moral”, disse o diretor-geral da AIEA, citado pelos diplomatas, que conversaram sob a condição de anonimato.

Segundo os presentes, tudo começou quando Michaeli disse que “os pedidos de cooperação do diretor-geral feitos a Israel são redundantes. Se ele realmente quisesse mais informações de Israel, não teria se recusado a se reunir com autoridades israelenses e evitaria criticar Israel em público. Israel pede ao diretor-geral que evite a parcialidade política ao lidar com o caso sírio”.

ElBaradei então tomou a palavra e salientou o fato de Israel não ser um país signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), suspeito inclusive de possuir um arsenal atômico não declarado. “Quem você acha que é para nos dizer como fazer alguma coisa aqui?”, questionou ele. Israel “nem ao menos é signatário” do TNP, prosseguiu o egípcio, cujo terceiro mandato à frente da AIEA expira este ano.

Investigação

A investigação da AIEA foi iniciada depois que aviões de guerra israelenses terem bombardeado uma estrutura dentro da Síria onde, segundo os Estados Unidos, estaria sendo construído, com a ajuda da Coreia do Norte, um reator nuclear configurado para a produção de plutônio, substância que pode ser usada para carregar ogivas nucleares. ElBaradei criticou o bombardeio israelense em diversas ocasiões.

A Síria nega a acusação de que mantém atividades nucleares ocultas, mas se recusa a aceitar o retorno de agentes da ONU depois de uma inspeção realizada no ano passado. Damasco também se nega a fornecer explicações aprofundadas sobre vestígios incomuns de urânio encontrados pela ONU. A Síria afirma que Israel utilizou bombas ou mísseis contendo urânio empobrecido no bombardeio e que os vestígios da substância encontrados no local seriam dessas armas. No entanto, ElBaradei considera improvável essa hipótese. Ao mesmo tempo, Israel nega ter usado tais armas.