Aliocha Maurício / GPP

Professora Verônica: ler e escrever
são habilidades básicas.

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O analfabetismo é um desafio que aflige o Brasil do século XXI. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), 13,6% da população ainda é analfabeta, ou seja, cerca de 16 milhões de pessoas. Os dados de 2003, permitem um comparativo entre a evolução das taxas de analfabetismo no Brasil a partir do fim da década de 80, quando a Constituição estabeleceu vinte anos para a erradicação deste mal que acompanha a Educação. A evolução é inegável, mas não chegamos a cumprir metade do que deveria ser feito. Os motivos, acreditam os especialistas, são falta de planejamento para distribuição dos recursos governamentais, ausência de reivindicações e a falta de preparo da escola.

A professora Verônica Branco, do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acredita que há meios de reverter o quadro e que as políticas de superação existem, mas concentram falhas na execução. Ela recorda que, quando da elaboração da Constituição de 1988, a meta nacional era erradicar o analfabetismo até 2010. ?Já se passaram 17 anos e não atingimos nem a metade da meta?, constata. Verônica acredita que, mesmo assim, o quadro vem evoluindo – àquela época, o número de analfabetos ficava entre 18% a 20% da população de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ?Mas não há uma distribuição uniforme. As regiões Sul e Sudeste são as melhores atendidas do ponto de vista econômico, o que reflete no âmbito social.?

De acordo com o MEC, o Sul tem realmente uma das taxas de analfabetismo mais baixas do País, o que pode ser exemplificado pelo Paraná, que em 2000 possuía cerca de 9,5% da população de 15 anos ou mais analfabeta – cerca 650 mil pessoas; em média, quatro pontos percentuais a menos que a média nacional. Isso pode ser explicado, para a professora, pelo crescente processo de urbanização. ?Ler, escrever e contar são habilidades básicas para a vida urbana. Em quase duas décadas, a tecnologia e os processos evoluíram, e hoje é impensável ter, por exemplo, uma empregada doméstica que não saiba ao menos ler uma receita, anotar um recado ou fazer suas contas ao final do mês.?

Ideal, mas irreal

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A pedagoga acredita que o prazo estipulado em 88 foi ideal, mas não real. ?Não vamos alcançar o que se pretendia?, afirma, percebendo o quadro evolutivo do analfabetismo. Contribuíram para que a meta não fosse alcançada, de acordo com a professora, a ausência de planejamento na distribuição dos recursos governamentais e a falta de mobilização desse contingente, que, primeiramente por não poder ler ou escrever, se cala diante da falta de preparo das escolas. ?Naquela época não se contemplou quanto o governo iria investir anualmente para erradicar o analfabetismo. E o analfabeto não abre a boca para reivindicar isso, ele tem vergonha até mesmo de conversar com uma pessoa que saiba um pouco mais que ele?, revela.

Somadas ao despreparo das escolas, para a educadora, essas características materializam a mudança no perfil do analfabeto deste século. ?Há 30 anos não iam à escola porque não tinham oportunidade. Hoje, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é formada por pessoas que tiveram acesso, mas não permaneceram na escola, ou seja, a escola não segura o aluno. Só depois que ele se dá conta de que pode ter um emprego um pouco melhor sabendo ler e escrever é que parte mais uma vez em busca do aprendizado. Objetivo este que nem sempre é alcançado?, lamenta.

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Adultos exigem atenção especial

O Brasil tem um grande contingente de analfabetos para atender, mas de acordo com a professora Maria Antônia Schuartz, os profissionais que trabalham com esses jovens e adultos não estão sendo adequadamente preparados a demanda. Maria Antônia dirige o Curso de Formação de Professores para Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e diz que o problema se evidencia na hora de lidar com esses alunos, que têm características diferentes para o aprendizado. ?O aluno totalmente analfabeto e em faixa etária adiantada tem dificuldades de ordem econômica, de saúde, desmotivação. Tudo isso concorre para que não tenha atração pela escola?, acredita a professora. ?Há necessidade de se pensar em trabalho que reúna esses adultos de modo que sintam satisfação em ir a um local atrativo, onde recebam orientações necessárias à aprendizagem.? Para isso, prevê Maria Antônia, é necessário um corpo docente especializado. ?O profissional que trabalha com adultos não pode ser o mesmo que lida com as crianças. A metodologia tem de ser diferente. O adulto tem vivência que a criança não tem, mas não possui a mesma facilidade para aprender. São poucos os que assimilam mais rapidamente os conteúdos.?

A preparação inclui desde o lado psicológico para atuar com os problemas que o adulto carrega consigo, e que influenciam no aprendizado, até o exercício de trabalhar com o tempo e as diferenças práticas de leitura e escrita que possuem em relação à criança. ?O desenvolvimento motor é um exemplo. Embora tenha passado por todas fases de desenvolvimento físico, o adulto tem mão dura para pegar na caneta e, quando se depara com pessoas mais escolarizadas, demonstra timidez. Mas é prazeroso, pois se sentem felizes em aprender?, define. (LM)

Alguns exemplos que dão certo

A constatação de que a idade avançada da população analfabeta fazia com que muita gente deixasse de ir à escola fez com que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, pensasse em meios alternativos de promover o aprendizado. Nesse contexto, de acordo com a gerente da EJA, Neura Maria Weber Maron, os voluntários foram fundamentais. ?Geralmente são professores aposentados, pessoas que querem continuar contribuindo com a sociedade?, descreve.

O programa Hora da EJA fornece capacitação profissional e material didático para esses alunos – em 2004, foram 1.312 – e professores. ?O município aplica um exame de equivalência atendendo quem estuda nesses locais alternativos, para que passem para a segunda fase do ensino fundamental – 5.ª a 8.ª séries?, explica Neura. Em 1989, quando começou a vigorar o exame, 73 pessoas foram aprovadas. No ano passado, esse número somava 960 alunos, demonstrando aumento na procura pela iniciação escolar em locais como igrejas, associações de moradores e sindicatos, onde as aulas geralmente acontecem.

Já o principal desafio para o ensino regular, de acordo com a gerente da EJA, é identificar quem são e onde estão os analfabetos, pois, conforme diminuem nas estatísticas, se tornam ao mesmo tempo um público cada vez mais plural em termos de idade, gênero, competências, bagagem cultural e expectativas. ?Fizemos levantamento dessas pessoas por meio de 117 mil questionários distribuídos aos alunos matriculados nas escolas. Já separamos os dados por região e o próximo passo será ir atrás de cada uma delas, chamando para a escola?, adianta a gerente da EJA. Em vinte anos, os índices de analfabetismo na capital caíram de 7,79% para 3,38% da população, apesar do aumento populacional em cerca de 500 mil habitantes. (LM)

Ações governamentais baseadas em parcerias

Ainda que o quadro do analfabetismo no Brasil demonstre as carências sofridas na área da Educação, algumas ações governamentais buscam amenizar as estatísticas. É assim com o Programa Brasil Alfabetizado, do Ministério da Educação, que consiste em prover recursos para ações conjuntas entre Estado, municípios e organizações não governamentais (ONGs).

De acordo com o coordenador do programa, Tancredo Maia, os investimentos se centram em formação, reciclagem e atualização do alfabetizador, viabilizadas por parcerias entre entidades e governo.

?Outra ação é a bolsa para o alfabetizador, que parte de um valor básico fixo de R$ 120 mais sete reais por aluno em sala de aula. É um trabalho voluntário e ele recebe como incentivo?, explica, adiantando novas providências: ?Ainda este ano vamos ampliar a distribuição de obras literárias e dar apoio a alunos que tenham necessidade de óculos. Mais da metade dos nossos alfabetizandos têm mais de 40 anos e sentem essa carência.?

O Paraná depende, entre outras fontes, desses recursos federais para viabilizar seu próprio programa, o Paraná Alfabetizado. O maior desafio, de acordo com o coordenador Wagner Roberto do Amaral, é eliminar os focos de analfabetismo que se formam em algumas regiões, com índices que variam entre 20% e 30% da população analfabeta. São elas o Vale do Ribeira e a faixa que se estende entre São Jerônimo da Serra, Curiúva, Telêmaco Borba e Ortigueira, seguindo até o Vale do Ivaí. ?Trata-se de cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e condições de miséria significativas, concentrando o analfabetismo entre segmentos sociais específicos, como bóias-frias, pescadores, indígenas?, descreve.

A partir da identificação do perfil, a meta é sanar o problema no Estado com políticas que contemplem as especificidades dessa população. ?Vamos pensar em estratégias que permitam a erradicação do analfabetismo. Nossa concepção não se limita em ensinar a ler e escrever, mas em ter essas ferramentas como porta de entrada para a escolarização básica.? A meta da secretaria é atender 60 mil pessoas no ano que vem pelo programa, superando as 47 mil atendidas em 2005. (LM)

Formação deve atender carências específicas

O desempenho do professor é um dos principais fatores que refletem na continuidade do aluno na escola, segundo a educadora Maria Antônia Schuartz. Para garantir a alfabetização e o desafio da permanência, ela enumera os investimentos em formação superior especializada e a necessidade em enxergar mais profissionalismo nessa área, independente das condições impostas.

?É meta do Plano Nacional de Educação a formação de professores com curso superior. Sabemos que há locais em que não existe essa condição, mas, onde é possível, é fundamental que esse profissional freqüente instituições que tragam benefícios e estímulos à sua formação?, enfoca. Para a professora, o voluntariado não é suficiente para erradicar o analfabetismo no Brasil. ?Já tivemos muitos movimentos desse tipo e ainda estamos com esse número grande de analfabetos. Precisamos ter condições de atrair as pessoas analfabetas através de profissionais qualificados para que, quando as tirarmos dessa situação, se sintam motivadas a continuar estudando.?

A necessidade de capacitação, para a gerente de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, Neura Maria Weber Maron, se centra na necessidade de adequar o profissional à diversidade do público atual de jovens e adultos analfabetos. ?Estudamos as diretrizes curriculares e ficou latente a necessidade de aprofundamento em alguns aspectos?, revela. A Prefeitura passou a oferecer treinamentos para aprimorar a transposição didática, por exemplo. ?Significa respeitar a experiência da pessoa, que, com a idade avançada, pode não ser alfabetizada, mas tem contato com a escrita.? Outros aspectos contemplados são aplicação diferenciada de avaliações, compreensão da diversidade dos sujeitos e dos processos pedagógicos da EJA, atendimento adequado a alunos com necessidades educativas especiais e a relação da educação com o mundo do trabalho. (LM)