Chuniti Kawamura / GPP
Chuniti Kawamura / GPP

Alzenir Santos sempre trabalhou
fora, mesmo tendo dois filhos.

A assistente social Alzenir de Fátima Sizanoski Santos tem dois filhos: Juliana, de 15 anos, e Guilherme, de 11. Ela sempre trabalhou fora e decidiu que iria contratar alguém para cuidar das crianças enquanto fossem pequenas. Mas quando crescessem, ficariam sozinhas. Quando o momento chegou, Alzenir percebeu que isso não seria o ideal. ?Era necessária a referência de um adulto dentro de casa?, afirma.

Nem sempre as famílias, principalmente de classes baixa e média, possuem condições de deixar seus filhos com alguém, em uma escola ou creche. As crianças acabam sozinhas, tendo que cuidar uma das outras e também da casa, ou embarcam em uma jornada de trabalho junto com os pais. A responsabilidade maior do que esta pequena pessoa pode agüentar se tornou um dos fatores para um fenômeno cada vez mais comum nos dias de hoje: as crianças estão amadurecendo mais rápido e acabam apresentando comportamento de adultos.

No caso de Alzenir, mesmo com a presença de uma pessoa de confiança dentro de casa durante todo o dia, sua filha Juliana ajuda a mãe no que for preciso, como levar o irmão nas aulas de natação. ?Minha filha é madura para a idade dela. Sempre foi independente, é uma característica dela. Mas acho que essa necessidade da família, dos pais, precisarem de ajuda, acabou influenciando nisso?, comenta Alzenir.

Para a doutora em Psicologia e coordenadora do Núcleo de Análise de Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lídia Weber, o que acontece atualmente com as crianças se parece com um retorno à Idade Média. Nesse período, as crianças foram consideradas miniadultos imperfeitos. Até mesmo as roupas eram as mesmas dos mais velhos. Somente no século XX a criança foi reconhecida em sua maneira de ser e com necessidades próprias.

Lídia explica que a mídia tem um papel importante no amadurecimento precoce de crianças. Os programas infantis e danças com modelos sexualizados, que aparecem na televisão, influenciam muito a vida da criança, inclusive na sexualidade. ?A pressão da mídia está fazendo com que a adolescência seja antecipada. Até a menarca (primeira menstruação) está sendo antecipada. A mídia influencia até na maneira da criança se vestir, com traços adultos, como minissaias e sapatos com salto?, avalia.

A psicóloga Mari Ângela Calderari, diretora da Clínica de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), acredita que a exposição à mídia exige outras respostas das crianças do que em outras épocas. ?Esse fenômeno tem dois caminhos, a partir do contexto social e familiar. O positivo é o desenvolvimento da capacidade de maneira efetiva. O negativo é às vezes ter que dar respostas com uma estrutura que não tem?, afirma.

O amadurecimento precoce pode até fazer com que os filhos não fiquem tão dependentes dos pais, mas se torna algo prejudicial, segundo Lídia. ?As crianças deixam de fazer cosias essenciais, como brincar. É na brincadeira que se estrutura e entende a realidade do ponto de vista infantil. Não tem menor sentido dizer que amadurecer mais cedo é bom. Até os 13 anos, o cérebro das crianças está em desenvolvimento. Precisam ser guiadas por adultos competentes e não deixadas sozinhas?, opina.

Para Mari Ângela, muitas crianças sentem que, na vida delas, nada é brincadeira. Por isso, não dão valor a uma folga, o que é primordial para o desenvolvimento. O tempo para brincar e se distrair dos problemas do mundo propicia a formação de uma base para enfrentar a realidade. ?Se ela não tem essa folga, precisa sempre buscar uma estrutura forte para enfrentar a realidade, o que não tem. Cada estrutura está apta a enfrentar um panorama. Há crianças que passaram por situações muito difíceis e se desenvolveram normalmente. Mas o mundo demanda da criança um outro tipo de resposta. Comparando a gerações anteriores, as crianças de outras épocas talvez não dessem conta da infância de hoje?, classifica.

Australiano estuda o ?deixar de ser criança?

O australiano Steve Biddulph – terapeuta familiar e escritor de publicações para pais mais conhecido na Austrália -, em seu livro Momentos mágicos com seus filhos (Editora Fundamento), aponta as notícias tristes dos programas e noticiários da TV; a vida superprogramada das crianças (com diversos eventos esportivos, musicais e culturais); a neurose da competição; os pais que trabalham demais; e o mundo inseguro em que vivemos como principais fatores para as crianças deixarem de ser crianças.

Em entrevista exclusiva a O Estado, ele diz que houve quatro perdas significativas para a infância nos últimos tempos. A primeira é a perda do contato com a natureza. As crianças que foram criadas em ambientes externos, com influência do clima, das plantas, dos animais e de simples materiais, tinham melhores sentidos, eram mais calmas, iam dormir assim que escurecesse, dormiam perto dos pais e conheciam intimamente plantas e animais. ?Elas tinham um mundo muito mais rico para desenvolver suas mentes e almas?, afirma.

A segunda perda foi o contato com a comunidade. Um mundo amistoso de pessoas relacionadas e que as conheciam foi deixado de lado. A terceira foi os pais, que desaparecem dentro dos locais de trabalho e chegam em casa cansados. Biddulph acredita que a quarta perda está ocorrendo agora. ?É a perda das mães. As crianças são colocadas em creches e centros de ensino integral muito novas, tendo menos das mães do que em qualquer geração da história. Então, substituem isso com brinquedos, computadores, treinos esportivos, aulas de arte e música. Mas esses são substitutos pobres?, classifica.

De acordo com o escritor, o ideal seria incentivar um revigoramento da infância e acabar com pressões desnecessárias. Ele chega a usar, em seu livro, a expressão ?despoluir a vida de nossos filhos?. ?O que os pais podem fazer? Em uma palavra: desacelerar. A pressa é inimiga do amor. Damos mais para as nossas crianças quando damos tempo, risadas, momentos silenciosos de leitura?, esclarece Biddulph.

Para tentar evitar o amadurecimento precoce, ele sugere oferecer tempo, espaço e materiais para brincadeiras simples, além de criar uma monotonia saudável e parar de assistir tanta televisão. Lídia Weber, do Núcleo de Análise do Comportamento da UFPR, defende a garantia de educação, saúde e creche para as famílias de renda mais baixa. Para as de classe média, ela cita que os pais precisam fazer uma reflexão sobre seus papéis. ?O adulto, quando tem filhos, tem que lembrar de sua infância. Esquecer a neurose de deixar tudo arrumado e não permitir que as crianças façam uma barraca de cobertor?, revela. Biddulph explica que as conseqüências para as crianças que crescem cedo demais podem ser o vício das drogas e álcool; disfunções alimentares e de falta de atenção; sexualidade precoce; gravidez na adolescência; insônia e pesadelos; e a entrada para o mundo do crime. (JC)

Mulheres não são únicas responsáveis

A entrada das mulheres no mercado de trabalho contribuiu para o amadurecimento precoce de seus filhos. Não se pode acusá-las, porém, de serem as únicas responsáveis. ?Às vezes deixam os filhos mais velhos cuidando dos mais novos, o que é incorreto. Crianças de 10 anos não têm responsabilidade e condições de cuidar de outras. Mas isso envolve uma questão social, de exigir creches nos locais de trabalho?, esclarece a doutora em Psicologia Lídia Weber.

De acordo com ela, a inserção feminina no mercado de trabalho não tem volta. ?Ficar em casa o tempo todo não significa que os filhos serão criados melhor.? A solução para muitos pais é levar os pequenos junto para a luta pela sobrevivência. Muitos catadores de papel, por exemplo, ficam com seus filhos pela rua, procurando o sustento. ?Não dá para jogar pedras nos pais, que estão em uma situação de miséria social. Com certeza a criança prefere estar na escola do que catar papel. Ela pode passar a viver um monte de coisa ruim sem controle. Acha que precisa se submeter a isso, o que gera uma baixa estima?, frisa Lídia. (JC)

Menores podem ficar com problemas

As crianças que se comportam como adultos podem apresentar alguns sintomas, como estresse, depressão, baixo desempenho escolar, desinteresse por atividades que gostava, insônia, irritação constante, enfrentamento da figura de autoridade. ?Os pais devem perceber o quanto a criança está ligada em situações de criança?, ensina Lídia Weber, coordenadora do Núcleo de Análise do Comportamento da UFPR. A psicóloga Mari Ângela Calderari, da PUCPR, explica que os pequenos acabam comunicando que algo está acontecendo por meio do comportamento.

Para ela, é difícil dimensionar quais serão os efeitos do amadurecimento precoce a longo prazo. De maneira geral, há uma tendência de a criança se tornar um adulto muito exigente consigo mesmo. Isso pode ocasionar uma frustração muito grande se não consegue dar conta de tudo. ?Uma pessoa no trabalho pode ter uma produção pobre porque sempre acha que tem que ser melhor?, declara Mari Ângela. Ela lembra que os pais precisam ser conscientes do que podem e do que não podem exigir dos filhos. (JC)