Um ano depois da vitória tranquila que garantiu seu segundo mandato, o presidente do Equador, Rafael Correa, decidiu endossar o projeto de lei que institui reeleições indefinidas no país. Antes reticente à ideia – ao menos em público -, ele mudou de tática, segundo analistas, em razão da derrota de seu grupo político nas eleições municipais de fevereiro e da desaceleração econômica do país.

Em fevereiro, os equatorianos foram às urnas para escolher prefeitos e os governadores. Os candidatos do presidente foram derrotados nas três principais cidades do país – Quito, Cuenca e Guayaquil – e apenas a última era governada pela oposição antes da eleição.

Em outras sete cidades nas quais se envolveu diretamente na campanha, Correa viu seus candidatos serem derrotados. No total de municípios, no entanto, a Aliança País saiu mais vitoriosa.

Na opinião da socióloga Natalia Sierra, da Pontifícia Universidade Católica de Quito, a perda eleitoral da Aliança País foi mais qualitativa do que quantitativa. “No caso de Quito e Cuenca, o que houve foi um voto de rejeição ao governo”, afirmou a analista ao Estado. “Mas não há dúvida de que depois das eleições regionais resolveram acelerar o projeto de reeleição.”

“O apoio de Correa nesta eleição regional não foi exatamente um beijo da morte. Era lógico que o governo perdesse em Guayaquil. Mas a votação de Quito foi surpreendente”, disse ao Estado o diretor da consultoria Spurrier, Walter Spurrier. “Até a eleição, parecia que Correa trabalhava com um cenário parecido com o da Rússia: o de deixar um substituto por quatro anos e voltar depois (como ocorreu com os presidentes Vladimir Putin e Dmitri Medvedev). Mas a derrota levantou a hipótese de que só ele é capaz de vencer a direita.”

Apesar de apoiar o projeto da reeleição, Correa ainda evita confirmar se vai concorrer. “Que ninguém se engane. Não decidi sair candidato à reeleição”, disse o presidente na quinta-feira. “Há uma restauração conservadora coordenada em marcha e com projeto de poder, Se sou eu a única chance de vencer a direita, nos vemos em 2017.”

Mesmo com o temor do bloco governista, a oposição tradicional equatoriana ainda carece de nomes fortes para fazer frente a Correa. O novo prefeito de Quito, Mauricio Rodas disputou as eleições contra o presidente no ano passado e ficou em quarto lugar. Após tomar posse, no mês passado, tem evitado fazer da prefeitura uma plataforma política.

“Comentou-se de uma dobradinha entre Jaime Nebot e Rodas em 2017, mas não acredito que nenhum dos dois pretenda deixar as prefeituras antes do fim dos mandatos”, afirmou Spurrier.

A analista da Universidade Católica de Quito lembra que, hoje, no Equador a oposição mais articulada vem de grupos indígenas. No mês passado, A Confederação dos Povos Indígenas do Equador elegeu seu novo presidente. Jorge Herrera prometeu seguir pressionando Correa contra a exploração de minérios em terras indígenas e outras pautas nas quais a entidade antagoniza com o governo.

“Hoje a oposição de esquerda, na figura dos grupos indígenas, continua mais organizada e coesa que a de direita”, disse Natália.

Economia

Outro ponto que apressou a decisão de Correa foi a desaceleração da economia equatoriana. “A política de investimento em infraestrutura e aumento do gasto público que tem sido bem sucedida desde 2007 tem se esgotado”, afirmou Spurrier. “O financiamento vindo da China tem diminuído e o governo não corta gastos. Teve de recorrer a um swap de ouro para reforçar o compulsório dos bancos.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.