O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden anunciou, nesta quinta-feira, 25, sua pré-candidatura à Casa Branca, pondo fim a meses de expectativa e engrossando uma enorme lista de pré-candidatos do Partido Democrata para desafiar Donald Trump nas eleições de 2020.

Para Hans Noel, professor de Ciência Política da Universidade de Georgetown, nos EUA, Biden vai ter de superar a briga interna entre moderados e progressistas do Partido Democrata – o que pode facilitar a vida de Trump. “Mas Biden terá algum problema em alcançar a ala progressista mais radical do partido, que fala mais alto. E isso é um grande problema durante as primárias”, diz Noel nesta entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Biden disse que preferia que Barack Obama não participasse de sua campanha, porque ele quer vencer por seus próprios méritos. Seria uma tática para evitar o legado e a impopularidade de Obama entre o eleitorado de Trump?

A participação de Obama só teria a ajudar sua campanha. Tenho a impressão que Biden pediu apoio de Obama, mas Obama não quer se envolver na luta interna dos Democratas, ao menos não neste momento da campanha. Eu tenho certeza de que Biden não rejeitaria o apoio tanto de Barack Obama quanto de Michelle, que são extremamente populares ainda. Mas Obama não vai ficar na linha de tiro nas primárias, exatamente como fez em 2016. Ele vai entrar na campanha quando o candidato estiver definido.

Que efeito esse distanciamento de Obama pode ter na campanha de Biden?

Não vai machucá-lo, por enquanto. O que vai machucá-lo, com certeza, é a luta dentro do partido. A candidatura de Biden vai exacerbar a divisão entre as facções moderadas e progressistas dos Democratas, dividindo o partido e facilitando a reeleição de Donald Trump.

Biden pode sobreviver a estas disputas?

A maior parte do Partido Democrata ainda é mais moderada do que idealista ou progressista. A maioria dos democratas eleitos para o Congresso em 2018 são moderados e querem construir um diálogo. Mas Biden terá algum problema em alcançar a ala progressista mais radical do partido, que fala mais alto. E isso é um grande problema durante as primárias.

Essa luta pode facilitar o caminho de Trump?

Trump é extremamente vulnerável. Não é à toa que há mais de 20 democratas tentando ser candidatos à presidência. Ele perdeu em 2016 por quase 3 milhões de votos e só está na Casa Branca por causa do colégio eleitoral. Ele manteve seu laço com a base da classe trabalhadora branca republicana, mas se distanciou de outros eleitores, especialmente as mulheres e eleitores urbanos. Se Trump continuar a repelir esses eleitores que o apoiaram em 2016, salvo alguma questão econômica, sua derrota em 2020 é possível.

Em seu anúncio, Biden ignorou as primárias e foi direto para a crítica a Donald Trump. ele não comete o erro que Hillary cometeu, em 2016, de acreditar que é o candidato mais forte?

Eu não acho que Hillary Clinton tenha cometido um erro ao pensar que ela poderia derrotar Trump. Ela havia conquistado a nomeação democrata antes de Trump ser o indicado. Ela enfrentou resistência, principalmente de Bernie Sanders, mas o erro não foi excesso de confiança, foi de estratégia de campanha. Biden está certo. O candidato democrata precisará se vender de maneira positiva, e rápido. É isso que Biden está fazendo.

Falando sobre a radicalização dentro do Partido Democrata, estamos vendo a ascensão de uma espécie de “Tea Party” de esquerda?

Sim, é certo ver os paralelos entre a radicalização dentro do Partido Republicano e dentro do partido Democrata. Mas o que você chama de “Tea Party” da esquerda é muito mais pragmático e, até agora, muito menos bem sucedido que a versão Republicana. Por enquanto, esta ala progressista não é tão grande ou influente. Basta comparar as vitórias eleitorais republicanas em 2010 com a dos os democratas em 2018. É impressionante: enquanto quase todos os republicanos abraçaram em certa medida o radicalismo, a maioria dos democratas venceu sem adotar o extremismo.

Como Trump vai usar essa radicalização do Partido Democrata?

Trump e os republicanos estão tentando retratar os democratas como “extrema esquerda” e “radical”. Eles estão pegando discursos pontuais e propostas pontuais e transformando-as em bandeiras do radicalismo democrata. Na medida em que os meios de comunicação aceitarem essas narrativas, isso com certeza vai ajudar os republicanos.