O presidente do Sudão, Omar Bashir, chegou nesta segunda-feira (23) à Eritreia, uma das nações mais isoladas do mundo. É a primeira viagem de Bashir para fora de seu país desde que o Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, na Holanda, ordenou um mandado de prisão contra ele, sob a acusação de crimes de guerra em Darfur. A televisão da Eritreia mostrou ao vivo Bashir desembarcando no aeroporto da capital Asmara, onde foi recebido pelo presidente Isaias Afwerki. Mais tarde, a televisão estatal sudanesa mostrou imagens do presidente retornando a Cartum.

O ministro da Informação da Eritreia, Ali Abdu, disse que o presidente sudanês estava acompanhado por membros do seu governo do setor de inteligência e segurança. A visita tem como objetivo discutir a segurança regional, segundo o ministro. O semioficial Centro de Mídia Sudanesa confirmou que Bashir recebeu um convite da Eritreia.

O TPI expediu em 4 de março um mandado de prisão contra o presidente do Sudão para que o líder responda por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos na região de Darfur. O governo de Bashir é acusado de estar por trás de uma milícia árabe, os Janjaweed, na repressão a uma revolta de africanos étnicos em Darfur. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que cerca de 300 mil pessoas morreram e 2,7 milhões foram forçadas a deixar suas casas desde o início do conflito, em 2003.

Sob as regras do TPI, os países-membros devem prender os indiciados assim que eles entrarem em seu território. A Eritreia não é uma das nações integrantes da Corte e já se pronunciou contrária ao mandado de prisão. O governo da Eritreia qualificou a decisão do TPI como “injustificável”, segundo o ministro da Informação. Para Ali, o mandado de prisão reflete o domínio de algumas poucas nações sobre o mundo. Poucos países árabes são membros do TPI.

A Eritreia, uma pequena nação do Chifre da África, já enfrentou duras críticas dos Estados Unidos e de grupos humanitários por violações aos direitos humanos. O governo norte-americano já avaliou a possibilidade de nomear o país como Estado promotor do terrorismo, por seu envolvimento com milícias insurgentes islamitas na Somália.

Encontro

A Liga Árabe realizará no dia 27 um encontro no Qatar. O grupo de 22 membros afirmou publicamente que Bashir é bem-vindo ao evento. Ontem, porém, religiosos islâmicos sudaneses emitiram um edito pedindo ao presidente que não compareça. O edito, uma opinião religiosa sem força de lei, soma-se a uma série de recomendações para que Bashir não vá ao encontro. Os religiosos disseram temer que o mandado possa ser cumprido na viagem. No entanto, o presidente da Liga Árabe, Amr Moussa, afirmou que isso não ocorrerá.

O ministro de Relações Exteriores do Sudão, Deng Alor, disse que ainda não foi decidido se Bashir irá ao Catar. Mas um porta-voz presidencial, Mahgoub Fadhel, disse que “não há nada que impeça” que ele compareça ao encontro. Bashir foi alvo de críticas quando expulsou 13 organizações humanitárias internacionais de Darfur, em retaliação ao mandado de prisão. Ele acusou os grupos de espionarem para o tribunal e ameaçou expulsar outras entidades.

A medida criou um vácuo na assistência aos necessitados. Sem os grupos, 1,1 milhão de pessoas ficarão sem comida, 1,5 milhão sem atendimento médico e mais de 1 milhão, sem água potável, segundo a ONU.