Marta Morais da Costa

O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, passou a integrar, a partir de 1910, o calendário anual de comemorações e do consumo. A data registra simultaneamente o passado distante, quando, em 1857, 130 operárias têxteis, em greve pela redução do horário de trabalho de mais de dezesseis para dez horas diárias, morreram carbonizadas num incêndio na fábrica em que se reuniam, e o passado recente de reivindicações sociopolítico-individuais, em que a atual maioria (o IBGE registrou, na população brasileira, 50,78% de mulheres e 49,22% de homens) deixou estampada a reviravolta nos costumes, comportamentos e auto-estima que a presença feminina trouxe à estrutura e às instituições sociais.

Ao prestígio conquistado correspondeu igual dose de conseqüências nada agradáveis: o crescimento nos índices de doenças cardíacas, a desestruturação da família, as atitudes desabridas e vulgares, a sobrecarga de tarefas e responsabilidades.

Não é tão antiga assim a reação de surpresa das professoras quando as crianças, solicitadas a ilustrar com recortes os cartões festivos entregues às mães no seu dia, entregavam figuras de executivas, secretárias, comerciantes em lugar do esperado ?avental todo sujo de ovo?.

Nesse tumultuado perde-ganha da trajetória das mulheres (e a seu lado, também dos homens) se desenha hoje o quadro social. No entanto, me seja permitido tratar aqui de três livros, entre outros existentes, em que à mulher coube uma função de extraordinário valor e que, engolida pela agitação da vida contemporânea e pelo despreparo e cansaço maternos, é uma das causas fundamentais que levam as crianças ao afastamento do mundo dos livros.

Trato primeiro de Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso, do historiador Robert Darnton, magnífico estudo que se encontra no livro O grande massacre de gatos. Ao descrever e documentar o que representavam as narrativas populares que percorriam os espaços e os grupos sociais nos séculos XVII e XVIII em boa parte da Europa, Darnton exalta o papel dos contadores de histórias, homens e mulheres, dedicados a entreter o público, a ensinar divertindo e a perpetuar a herança cultural de seus povos.

Entre esses contadores, o papel substancial desempenhado pelas mulheres, ?esposas de camponeses, junto à roda de fiar, depois de um dia cuidando do gado, carregando lenha ou ceifando feno?. Nos serões, reuniões realizadas junto à lareira, à noite, ?quando os homens consertavam suas ferramentas e as mulheres costuravam, todos contando e escutando histórias que seriam registradas pelos folcloristas trezentos anos depois e que já duravam séculos?. A coletânea de Perrault, um dos livros pioneiros no registro dessas narrativas, atribui a fonte das histórias à Mamãe Ganso. A primeira versão publicada de Mamãe Ganso mostra três crianças bem vestidas ouvindo uma velhinha trabalhando num local semelhante a um alojamento de criados. ?Acima dela, uma inscrição diz Contes de ma mère l?oye, uma alusão aparentemente ao som cacarejante dos contos das velhas.? São imagens que ajudam a criar estereótipos, mas ao mesmo tempo documentam costumes da época. Mulheres no trabalho de fiar e contar, criadas, amas-de-leite, velhas, elos entre tempos, emoções e lições de vida.

Sob uma perspectiva psicanalítica junguiana, Clarissa Pinkola Estés se dedica à divulgação e valorização da Mulher Selvagem, arquétipo associado à expressão e à arte de inventar, essencial à saúde mental e espiritual da mulher. A autora expõe e esclarece esse ponto de vista em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. Em determinado momento de sua argumentação, ela distingue três tipos de contadora de histórias: 1. a ?mesemondók?, velhas húngaras que contam suas histórias sentadas em cadeiras de madeira, com suas carteiras de plástico no colo, as pernas abertas, as saias tocando no chão?; 2. as ?cuentistas velhas latinas que ficam paradas em pé, com seus seios fartos, ancas largas, gritando histórias no estilo ranchera. Segundo ela, ?os dois clãs contam histórias na voz natural das mulheres que vivenciaram famílias e filhos, pão e ossos?.

Um terceiro tipo, as modernas contadoras de histórias, que ?descendem de uma comunidade imensa e antiqüíssima composta de santos, trovadores, bardos, griots, cantadores, chantres, menestréis, vagabundos, megeras e loucos?. Todas elas representantes do arquétipo da Mulher Selvagem.

Com tratamento poético, num pequeno livro, belo e fartamente ilustrado, Ana Maria Machado narra a relação entre mulheres, trabalho de bordar e fiar e histórias. O livro se intitula Ponto a ponto. Nele a autora utiliza citações de textos literários, referências a personagens e escritores, a magia e beleza da palavra literária, para esculpir a figura da mulher de ?voz doce e mansa?, que une o ?fiapo de voz? ao ?fio d?água? das narrativas de tradição, que provocam a união de mães e filhos, enredados em muitas histórias. Ao final, a narrativa imagina um ?novo mundo em contraponto?, uma outra história em forma de livro ?com ponto de exclamação?. O congraçamento de vozes, tradição e ouvidos, ao mesmo tempo em que retoma a imagem perene da mulher-sereia a encantar os ouvintes, propõe a aventura de, ao atravessar o mar de histórias, dar à praia de uma outra história, construída com muitas vozes, femininas e masculinas.

Na verdade, não há como tratar de um assunto, qualquer que ele seja, sem que se enredem textos com textos e escritos provindos de fontes diversas, que um leitor arranja e executa em música nova para seduzir olhos e ouvidos.