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A expressão “curitiba” constitui uma metonímia toponímica

  • Por Jornalista Externo

A significação precisa do topônimo “curitiba” tem sido estudada através dos anos por ilustres mestres da língua portuguesa. Dizia o notável estudioso e historiador Ermelino de Leão que “a anarquia ortográfica que se observa em relação ao nome da capital paranaense vem de tempos imemoriais e se justifica porquanto a língua tupi não saira do primitivo período fonético.

No entanto, tem-se observado que, desde os primeiros suspiros da cidade, em meados do século XVII, o topônimo vem sendo registrado das mais diferentes formas (Coré-etuba, Coretiba, Coreitiba, Coritiba, Corituba, Curetiba, Curiyatiba, Curiyatuba, Curiytiba, Curituba, Curutiba, Curytiba e, finalmente, Curitiba, o que, até uma determinada data, concorreu para a anarquia ortográfica referida por Ermelino.

Ao final do século XIX, Curytiba acabou ganhando foros de credibilidade, pois o padre Antônio Ruiz Montoya e a língua brasílica haviam registrado a forma indígena originária. O vernáculo, no entanto, carecia de ordenamento oficial. Usava-se também Coretiba e Coritiba, resumindo-se o problema no significado do topônimo diante dos seus étimos guaranis, cury i, designativo de pinheiro, e curé e coré, que significam porco. Como resultado destes radicais associados ao sufixo tiba, que designa quantidade ou abundância, formaram-se os dois substantivos que, num limitado espaço da gramática brasileira, viriam a conviver até os dias de hoje: Curitiba e Coritiba.

Curitiba possui, assim, um étimo e Coritiba, outro.

Tomados os radicais guaranis, curiy e curé ou coré, o primeiro designando pinheiro e os demais porco, tem-se que Curitiba, variante sincopada de Curiytiba, quer dizer abundância de pinheiros e Coritiba, curé + tiba ou coré + tiba, abundância de porcos. Prova disso é o cacique tingüi (do qual ninguém descobriu o nome) que, ao conduzir, por volta de 1654, os moradores da Vilinha, situada nas margens do Rio Atuba, à bela colina que é hoje a Praça Tiradentes, situada entre duas aguadas piscosas e farta em caça, especialmente tatetos, não teria tido a ingenuidade – pronunciando taki keva: Coré-etuba! – de apontar-lhes o óbvio, ou seja, os pinheiros existentes por toda parte, copadas a perder-se no horizonte.

Quis mesmo dizer àquele povo humilde, privado de repente dos seus garimpos, das condições ideais do local que indicava para assentamento. Fauna e flora, e fácil subsistência, tanto pelas muitas varas disponíveis, o que afirmou, quanto pelo lugar proveitoso, que mostrou, servido ainda pelos rios Ivo e Belém.

A ortografia atual e oficial – Curitiba – foi estabelecida em 1919, por decreto do então presidente do Estado do Paraná Affonso Alves de Camargo, que levou em conta, na ocasião, o fato de o nome da cidade ser grafado comumente de diferentes formas; apresentava-se, portanto, a conveniência de estabelecer-se-lhe a uniformidade. Assim, oficialmente, foi decretada a grafia Curytiba, com ípsilon, que foi naturalmente alterada em 1943, quando a reforma ortográfica permutou os ípsilons pelos is.

No início do século, em 1909, foi fundado pela colônia alemã da época o Coritiba Foot Ball Club, que ainda mantém forma original, estabelecida no ato da criação. Em nome de uma velha e honrada tradição, jamais se preocupou em alterar, tanto a forma arcaica oriunda do sufixo guarani coré, quanto os vocábulos futebol e clube, incorporados em inglês, por inexistir, na época, os correspondentes adequados na língua pátria.

De maneira que a providência governamental, ao instituir a unificação da fórmula gráfica, determinou o significado e o sentido do vocábulo, pois vertido singelamente para o português acusa o descompromissado, embora correto, muito pinhão, revestindo-se o termo traduzido do caráter aparentemente ingênuo e simplista.

Valério Hoerner Júnior é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e pertence à Academia Paranaense de Letras.

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