O motorista Francisco das Chagas Costa disse hoje, na CPI dos Bingos, que viu o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, "duas ou três vezes" na casa do Lago Sul, bairro nobre da cidade, aonde seus atuais e ex-assessores se reuniam para tratar de negócios e aonde eram recebidas as moças contratadas pelo auto-intitulada promotora de eventos Jane Mary Córner. Ele contou que Palocci chegava lá de dia, no veículo Peugeot conduzido pelo então assessor da presidência da Caixa Econômica Federal, Ralph Barquete, mas não soube do que ele tratava quando ali estava. O certo, segundo ele, é que Palocci não participava das festas noturnas organizadas na casa por Vladimir Poleto e por outros integrantes da chamada República de Ribeirão Preto. "Eles faziam festa e levavam as meninas para a casa. Eu levei (no carro) as meninas, sim, várias vezes, deixava lá. Todo mundo participava das festas", contou.

De confiança de seus patrões, o motorista tinha livre acesso à residência. Segundo ele, Poleto, Rogério Buratti, o secretário particular de Palocci, Ademirson Ariovaldo da Silva, e o empresário Roberto Carlos Kurzweil, dono do carro que teria transportado de Campinas para São Paulo a doação de R$ 3 milhões de Cuba para o PT, se reuniam com freqüência na casa. Ele afirmou que quando eles pediam para ser levados ao Ministério da Fazenda, com exceção de Ademirson, comentavam que iriam se encontrar com o "chefão". O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) lembrou que o tratamento de "chefão", supostamente atribuído à Palocci, também aparece nas gravações feitas pela Polícia Federal no inquérito que apura contratos superfaturados da prefeitura de Ribeirão Preto. "Eu ouvia falar: tenho uma reunião com o chefão, temos de falar com o chefão tal hora. Podia ser ele (Palocci), eles não falavam ministro Palocci, não, falavam chefão. Quando queriam falar com chefão, pediam para ir ao ministério da Fazenda", contou.

Considerado autêntico pelos senadores, o depoimento do motorista entra em choque com o que disse o ministro da Fazenda à CPI. Ele negou categoricamente ter visitado a casa do Lago Sul Na ocasião, Palocci também tentou passar a idéia de que não tinha relacionamento com Poleto, a quem coube a tarefa de alugar a residência. Para o senador Tião Viana (PT-SP), o depoimento foi "simples". "Ele me deu a impressão que não estava aqui para fazer o mal", afirmou. Após ligar para o ministério da Fazenda durante o depoimento, Tião informou que Palocci mantém a versão de que nunca esteve naquela casa. "E eu não tenho motivos para duvidar do ministro", alegou.

O motorista foi convocado pela CPI para falar dos telefonemas trocados, entre 2003 e 2004, entre várias pessoas que estão sendo investigadas nos dois celulares habilitados em seu nome. Ele disse ter fornecido os documentos a Poleto para que este comprasse o aparelho que ficava em seu poder. Só Ademirson Ariosvaldo, por exemplo, ligou mais de 200 vezes para os celulares. Entre as conversas que ouvia na casa, Francisco disse ter ouvido Buratti, Poleto e Barquete acertando um reunião com o pessoal da multinacional Gtech. "Não sei se no hotel, onde se hospedavam, ou se no (restaurante) Porcão", afirmou. Ele disse ter conduzido o empresário Antonio Carlos Kurzweil duas vezes do hotel para a residência e uma vez para o ministério da Fazenda.

Contou ainda que, em determinada ocasião, levou Barquete para uma reunião no ministério, no mesmo horário em que estava previsto um encontro com empresários de bingos angolanos. Citou entre eles Artur José Valente Caio. Após o depoimento, os senadores Tião Viana e Eduardo Suplicy (PT-SP) cercaram o motorista, segundo eles, para se colocarem à disposição do que ele precisar. Francisco saiu do Senado abalado, sem querer conversar com os jornalistas. Ele levou assessores da CPI à casa do Lago Sul, para confirmar que conhecia bem o local, antes de ser deixado em casa, na periferia de Brasília.