Fragilizado com as declarações do caseiro Francenildo Santos Costa, conhecido como Nildo, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, adotou a estratégia de se proteger em seu gabinete, no terceiro andar do Palácio do Planalto. Desde que a Agência Estado divulgou entrevista exclusiva com Nildo, no dia 14, Palocci evita até o Ministério da Fazenda e limita sua agenda a reuniões e despachos no palácio onde usa entradas e elevadores privativos – e assim, isolado, se esquiva da imprensa.

A assessoria de Palocci justificou que "as reuniões no palácio são rotineiras", mas reconhece que "agora o ministro tem despachado mais" que o usual.

O ministro tem evitado o confronto em meio a tamanha turbulência e só fez uma defesa desde a aparição de Nildo, também por sua assessoria, desmentindo suas declarações à Agência Estado. Alega que o caseiro e o motorista Francisco das Chagas Costa "não estão falando a verdade".

O motorista e o caseiro dizem ter visto o ministro freqüentar a mansão do Lago Sul em Brasília com ex-assessores de Ribeirão Preto, por oito meses, entre 2003 e 2004. Nildo afirma ainda que na casa eram feitas reuniões para organizar a distribuição do dinheiro da chamada república de Ribeirão. Nessa mesma defesa, a assessoria reitera o que Palocci disse em depoimento à CPI dos Bingos: "Nunca foi à casa do Lago Sul e, portanto, não tem qualquer relação com as atividades realizadas na mesma."

Aparição virtual

A única aparição pública de Palocci no período foi virtual, no dia 14 de março, em uma teleconferência para a Tendências Consultoria. Na teleconferência o ministro afirmou que pretendia manter-se à frente da Fazenda, negando rumores de que assumiria a coordenação de campanha do presidente Lula, como em 2002. "Eu afirmei ao presidente que gostaria de não me envolver na campanha e de prosseguir no trabalho no Ministério da Fazenda. E isso corresponde à vontade do presidente", disse. E não fez nenhuma menção sobre as declarações do caseiro e do motorista.

Mas no dia 16 a situação de Palocci se agravou, com o depoimento parcial de Nildo à CPI dos Bingos. O depoimento foi interrompido por liminar concedida pelo ministro Cezar Peluso, do Superior Tribunal Federal, atendendo a pedido do senador Tião Viana (PT-AC). Mas Nildo falou por 55 minutos, o suficiente para agravar a situação do ministro, que perdeu a blindagem da oposição e passou a receber duros ataques do PSDB e PFL, exigindo sua saída do Ministério da Fazenda.

No dia do depoimento, o líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), garantiu que Palocci faria um pronunciamento sobre as novas declarações do caseiro à CPI. A expectativa do pronunciamento segurou um pouco a pressão da oposição sobre o ministro, mas os boatos sobre a queda de Palocci ficaram tão fortes que o Palácio do Planalto divulgou nota negando que ele tivesse apresentado carta de demissão.

O aguardado pronunciamento não foi realizado e a defesa do ministro passou a ser feita por seus companheiros de partido e nos discursos do presidente Lula, que teve de desmentir sistematicamente a queda de Palocci. A crise levou o PT a uma situação pouco usual nos últimos tempos: o partido firmou pacto de defesa do ministro e não fez ataques à política econômica no sábado, em reunião do Diretório Nacional em São Paulo.