O Ministério da Saúde proibiu a distribuição, o comércio e o uso em todo o País de dois anestésicos produzidos pela empresa Hipolabor Farmacêutica. Uma mulher morreu no sábado, depois de receber os medicamentos numa cirurgia no hospital de Santa Luzia, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Outras sete mulheres passaram mal na semana passada sob condições semelhantes e no mesmo hospital. Todas haviam passado por cesarianas ou cirurgias no útero.

As proibições cautelares foram publicadas hoje no "Diário Oficial da União" e valem para o cloridrato de bupivacaína (lote AR 001/05) e o cloridrato de lidocaína 2% (lote LL 239/05). Ambos são fabricados pela Hipolabor, que tem sede em Sabará, na região da capital mineira.

Ainda não se sabe se a responsabilidade foi dos anestesistas, do hospital ou do laboratório farmacêutico. Os casos estão sendo investigados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Vigilância Sanitária de Minas Gerais. Os resultados da investigação – que inclui a análise dos medicamentos e o exame médico do cadáver da mulher – devem sair até o final de abril. O laboratório diz que os dois anestésicos "atendem rigorosamente a todas as exigências técnicas".

Antecedentes

Não foi a primeira vez que os anestésicos da Hipolabor causaram problemas. No segundo semestre do ano passado uma mulher morreu e outras nove passaram mal no Estado de São Paulo depois de serem anestesiadas com o cloridrato de bupivacaína. Em todos os casos, as mulheres estavam em trabalho de parto.

A morte ocorreu em agosto, na cidade de Mairiporã, na Grande São Paulo. As outras mulheres tiveram náuseas, vômitos, tremores, cefaléia e diminuição de consciência.

Na época, por causa do "número crescente de notificações de reações adversas", a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo divulgou um alerta aos médicos do Estado destacando os riscos do uso do cloridrato de bupivacaína. Amostras do anestésico suspeito foram enviadas ao Instituto Adolfo Lutz, mas não foi encontrado nenhum problema.

De acordo com a Anvisa, existem atualmente mais quatro casos suspeitos de reações adversas no Estado de São Paulo em decorrência do uso desse medicamento. E outros quatro no Amazonas envolvendo o outro anestésico.

Meningite

No final do mês passado, a Secretaria de Saúde do Amazonas notificou a Anvisa de reações alérgicas que quatro pessoas tiveram após serem anestesiadas. Os casos ocorreram numa clínica particular de Manaus e envolveram o cloridrato de lidocaína da Hipolabor.

Procurada, a Vigilância Sanitária não informou se os pacientes envolvidos eram mulheres e estavam grávidas, como em São Paulo.

De acordo com o chefe da Vigilância Sanitária, Evandro Melo, apenas o hospital Santa Júlia, onde ocorreram os casos, tinha o anestésico no Amazonas. "Fizemos blitze tanto no sistema público quanto no privado, mas só encontramos e recolhemos lotes no hospital onde os casos foram notificados", afirmou.

Melo informou que, no dia 26, a suspeita era de que as quatro pessoas que passaram mal antes de realizar cirurgias, depois de anestesiadas, estivessem com meningite. A UTI do hospital chegou a ser interditada naquele dia.

Depois dos exames epidemiológicos e da observação dos pacientes, constatou-se que era uma reação alérgica. "Pareceu meningite porque os pacientes tiveram convulsões. Mas, como até cinco horas depois os pacientes estavam normais, o diagnóstico foi uma reação alérgica causada pelo anestésico", disse ele.

Confusão mental

A mulher que morreu em Minas Gerais no sábado foi a dona de casa Zélia Ferreira Elpídio, de 30 anos. Ela passou mal no Hospital São João de Deus, em Santa Luzia, depois de uma cesariana. Seu filho nasceu e passa bem. Ela teve de ser transferida para o Hospital Evangélico, de Belo Horizonte onde morreu uma semana depois.

Das sete mulheres que sobreviveram, duas continuam internadas na capital e devem ter alta logo. A babá Rosângela Porto, que já não corre risco de vida e foi liberada, disse que sentiu fortes dores na nuca e teve confusão mental. "Só comecei a melhorar depois que fui novamente medicada", conta.

O Hospital São João de Deus, o único de Santa Luzia, é filantrópico e atende cerca de 7 mil pessoas por mês. O hospital passa por reformas e, mesmo assim, vem mantendo o atendimento normal. A direção criou uma comissão para investigar o caso. "Vamos apurar o que aconteceu. Mas não há a mínima hipótese de infecção hospitalar", afirmou Paulo Auais, diretor clínico do hospital.

Procurada, a empresa Hipolabor afirmou que só comentaria o caso após os resultados da investigação da Vigilância Sanitária. Por nota, o laboratório disse que os problemas "podem estar ligados a outros fatores que não o medicamento".

A Hipolabor afirmou também que atende a todos os requisitos legais e que todos os seus medicamentos têm registro na Anvisa. "Possuímos qualidade assegurada."