O ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, encontrado morto sábado numa cela pertencente ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), escreveu uma carta à chancelaria russa um dia antes de morrer afirmando que estava sendo envenenado e pedindo ajuda, informou neste domingo o advogado dele, Zdenki Tomanovic.

Para a promotora-chefe do TPII, Carla Del Ponte, a hipótese de envenenamento é apenas um rumor. "Estamos diante das hipóteses de morte natural e suicídio", acrescentou ela.

Milosevic, de 64 anos, sofria de pressão alta e problemas cardíacos. Ele conduzia a própria defesa e vivia em grande estresse, o que agravava seu estado.

O tribunal viu-se forçado a adiar inúmeras audiências para que ele recebesse atendimento médico e repousasse. Funcionários do tribunal suspeitam que Milosevic deixara de tomar medicamentos, provavelmente em protesto contra os juízes que lhe negaram autorização especial para fazer um tratamento na Rússia.

Na carta divulgada pelo advogado, Milosevic se diz muito preocupado com sua sorte. "Querem me envenenar", escreveu, pedindo apoio ao ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. "Estou escrevendo para pedir ajuda e proteção contra as atividades criminosas que estão sendo perpetradas por esta instituição que atua em nome das Nações Unidas", prosseguiu

A Rússia era uma aliada muito próxima da antiga Iugoslávia e dá asilo à mulher de Milosevic, Mirjana Markovic, e ao filho dele, Marko. Milosevic diz ainda na carta ter recibo recentemente resultados de exames de sangue feitos em janeiro que revelavam a existência de doses elevadas de medicamentos destinados ao tratamento de hanseníase e tuberculose – drogas que neutralizariam o efeito dos remédios contra a hipertensão.

"Os que estão me dando essas drogas, especialmente aqueles a quem combati para defender meu país durante a guerra, estão interessados em me silenciar", acusa.

O advogado Zdenko Tomanovic disse ter enviado a carta na sexta-feira à Embaixada da Rússia na Holanda. "Até o momento, não recebemos nenhum documento assinado pelo senhor Milosevic", disse hoje em Moscou Mikhail Kamynin, porta-voz da chancelaria russa.

Embora assegurando não acreditar em envenenamento, a promotora-chefe do TPII, Carla Del Ponte, deixou a palavra final com o Instituto Forense de Haia, encarregado da autópsia. O trabalho, acompanhado por um legista sérvio, foi feito hoje mesmo. Segundo resultados preliminares, a morte de Milosevic foi causada por um ataque cardíaco.

Mais cedo, porém, a imprensa holandesa citou uma fonte no TPII dizendo que os médicos forenses encontraram substâncias estranhas no organismo do ex-presidente iugoslavo, entre elas remédios contra tuberculose e hanseníase.

A mulher e o filho de Milosevic queriam que a autópsia fosse feita na capital russa. O advogado do ex-presidente entrou com um recurso judicial, mas o TPII indeferiu.

A família responsabiliza o tribunal da ONU pela morte de Milosevic por ter negado autorização para que ele recebesse tratamento em Moscou.

Uma disputa gira agora em torno do local onde o corpo será sepultado. A viúva Mirjana e o filho Marko querem que seja em Moscou. Pesa sobre ambos uma ordem internacional de prisão por corrupção expedida pelo governo da Sérvia. Se eles se deslocarem a Belgrado para assistir aos funerais poderão ser presos. Até hoje à noite, o governo sérvio não havia concedido anistia temporária a eles.

Marija, filha de Milosevic, discorda da mãe e do irmão. Ela acha que o pai deve ser sepultado em Lijeva Rijeka, remoto vilarejo natal do ex-líder a 50 quilômetros ao norte de Podgorica, capital de Montenegro. "Meu pai não é russo para ser enterrado em Moscou", reagiu ela. "Se os funerais ocorrerem na Rússia, não estarei presente." Marija também está sendo processada, por tentativa de homicídio. Ela recebeu a tiros de pistola os funcionários do governo que deram ordem de prisão a Milosevic em 2001.

O Partido Socialista, do qual Milosevic foi líder máximo, quer que Milosevic seja enterrado na Sérvia. "Queremos que ele seja sepultado no Mausoléu dos Heróis", disse Ivica Dacic, presidente da agremiação, prevendo uma grande manifestação de apoio popular

Por sua vez, a oposição sérvia, duramente reprimida pelo regime de Milosevic, saiu às ruas para celebrar uma coincidência: o terceiro aniversário do assassinato de seu líder, Zoran Djindjic que liderou o movimento pró-democracia de 2000, derrubou o Milosevic e o entregou ao TPII.