Nosso querido Alceu Amoroso Lima, falecido há vinte anos, era mais conhecido entre os leitores de jornais pelo pseudônimo de Tristão de Athayde. Poucos brasileiros projetaram tanta luz sobre nossas letras e nossa história como este homem que soube multiplicar generosamente os talentos que Deus lhe confiou. Jornalista, crítico literário, ensaísta, filósofo, Mestre Tristão foi sobretudo um peregrino obcecado pelo horizonte histórico de justiça e de liberdade que ele perseguia, nutrido por sua irradiante fé cristã e comprometido com a permanente resistência ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão.
Nascido em casa grande, até os vinte anos o jovem Alceu não revelara senão preocupações estéticas, encerrado num ceticismo que lhe transmitiam seus autores preferidos, Machado de Assis, Anatole France e Eça de Queiroz. Ao diplomar-se em Direito, em 1913, embarca para a Europa e, no Hotel Daniele, em Veneza, indaga a si mesmo se a vida teria sentido ou seria o suicídio a única alternativa. A guerra, entretanto, desperta nele a dimensão social da vida e deixa-lhe um legado duradouro: o horror ao militarismo. A chegada das tropas alemãs o obriga a deixar Paris, onde surgira sua simpatia pelo socialismo graças à obra Le Feu, de Henri Barbusse. Perdura ainda sua visão de uma Igreja como velha dama da monarquia, marcada pela falta de inteligência, pelo anacronismo e o reacionarismo.
Em 1918, Afrânio Peixoto, seu cunhado, o apresenta a Jackson de Figueiredo, recém-convertido ao catolicismo. A amizade é, no início, conflitiva: na literatura, Tristão preferia João Ribeiro; Jackson, Rocha Pombo; na política, o primeiro era liberal, o segundo, autoritário. Estabelecem uma correspondência que durou de 1924 a 1928, quase toda em torno da questão religiosa, pela qual Alceu nutria indiferença, atraído que andava pelo anarquismo de Lima Barreto. Numa das cartas, ele confessa a Jackson que perdera a crença na razão e se perguntava se a loucura não o levaria a alguma coisa. Foi nesse momento que Jackson deu o empurrão decisivo que permitiria a Alceu dar o salto na fé.
Anos mais tarde, numa de nossas conversas, ele compararia sua conversão ao Cristianismo a um passeio de barco que fizera com um amigo, sem conseguir esconder o medo que sentia da água. O amigo indagou de sua inquietação e ele revelou que não sabia nadar. “Então vou ensinar você a nadar”, disse o amigo, e o empurrou n água. Mestre Tristão me disse ao recordar esse episódio: “Se ainda estou vivo é porque, naquele dia, consegui alcançar a praia nadando. Foi um salto como este que dei na esfera da fé”.
Péguy, Chesterton, Maritain e Bernanos indicam o caminho pelo qual o neoconvertido chegaria a fazer a síntese entre a fé e a inteligência, mas a praxis cristã ele a encontraria no contato com o padre Leonel Franca, o cardeal Leme e o trabalho na revista A Ordem. A partir de 1922, Alceu Amoroso Lima participaria de três momentos revolucionários da história de nosso país: da revolução política, com o tenentismo; da revolução cultural, com o Movimento Modernista; e da revolução espiritual deflagrada pelas obras Pascal e a Inquisição do Mundo Moderno, de Jackson de Figueiredo, e A Igreja, a Reforma e a Civilização, do padre Leonel Franca.
Com a morte de Jackson, em 1928, Alceu assume o Centro Dom Vital e, a pedido do cardeal Leme, a Liga Eleitoral Católica que, apesar do nome, defendia um programa eleitoral sem caráter confessional e não indicava candidatos próprios. Essa atividade acentua a importância política da presença de Mestre Tristão, sem jamais vencer sua determinação de não assumir cargos eletivos.
A Segunda Guerra imprime nele a certeza de que o fascismo e o direitismo representam uma contradição formal com a dimensão social do Evangelho e de que a fé deve encarnar-se concretamente nos problemas sociais. Se seu anterior namoro com o integralismo fora provocado basicamente por ser ele um burguês com espírito antiburguês, a leitura de Le Grand Cimetière sur la Lune, de Bernanos, o levaria, do horror ao franquismo a repudiar a idéia de uma “organização política do espiritual”. A guerra o fez perceber que a fé não era algo antiético ou separado da política, e nem a Igreja deveria conceder caráter confessional à cristandade ou à neocristandade edificada pelo Estado. Completa-se então a etapa final de sua vida, marcada por três fases: a das formas, na qual predomina a estética; a das idéias, da inteligência iluminada pela fé cristã; e a dos acontecimentos, vistos como “sinais dos tempos” que refletem a presença de Deus. Seus últimos artigos semanais buscavam detectar, por trás dos fatos, a vida e a antivida, a graça e o pecado, tornando-o, no sentido mais preciso, também um teólogo, um homem capaz de usar sua inteligência para mergulhar na realidade criada à procura do Nome do Criador.
No início dos anos 70, quando eu me encontrava no cárcere, o apoio de Mestre Tristão me levaria, pouco depois, a convidá-lo para prefaciar meu primeiro livro, Cartas da Prisão. Da admiração que eu nutria pelo pensador nasceu uma amizade tecida de cartas e de inesquecíveis colóquios em seu apartamento no Rio e em sua casa em Petrópolis. A última vez que nos vimos foi no Natal de 1982, na tranqüilidade beneditina do mosteiro paulista dirigido por sua filha, Irmã Maria Tereza, carinhosamente tratada por Tuca. Fui levar Lula para conhecerem-se pessoalmente. Foi a única ocasião em que vi o fundador do PT em silenciosa contemplação diante de alguém. Alegre, bem disposto, Mestre Tristão improvisou uma aula de história política do Brasil e disse a Lula: “O PT é o partido do futuro. Meus netos são petistas”.
Ao completar 85 anos, perguntei ao Mestre se, naquela idade, ele sentia medo da morte. Com irradiante jovialidade, ele respondeu: “A morte não me preocupa. Só me preocupa a morte dos meus amados. A morte é para mim a paz, a plenitude, o encontro. Diante dela sinto-me inteiramente à vontade”.
Frei Betto é escritor, autor da biografia romanceada de Jesus, “Entre todos os homens” (Ática), entre outros livros. Rede de Cristãos.