O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confessa que tem medo de avião. Tomara que não tema voar no jato presidencial, pois se imagina que é seguro. Afinal de contas, custou o olho da cara e está sempre voando de lá para cá. Mais de cá para lá. Na posse do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, além da confissão de medo, o que é humano e, nas circunstâncias atuais, plenamente justificado, o chefe da nação também disse que vai fortalecer o Ministério da Defesa e apetrechar todo o sistema, nele injetando polpudas, porém imprescindíveis verbas.

Um trabalho da ONG Contas Abertas, que esmiúça os números do governo, revela que a União mantém intocados R$ 2 bilhões do Fundo Aeronáutico. Já se demonstrou que, em seis meses, nenhum tostão do PAC foi destinado à aviação. A reserva dos Fundos Aeronáutico e Aeroviário dobrou de 2002 para cá, já descontada a inflação. As duas fontes de recursos, que foram criadas com o objetivo de garantir investimentos no sistema da aviação, já acumulam R$ 2,1 bilhões. Contabilizados, permanecem parados nos cofres do Tesouro para decolar o superávit primário do fim do ano… Dinheiro que sobraria para realizar os investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento e para o Plano de Desenvolvimento da Infraero. Essas verbas seriam para prover infra-estrutura em aeroportos e recursos para ampliação de pistas de pouso. Guido Mantega, ministro da Fazenda, acaba de anunciar investimento nessa rubrica de R$ 1 bilhão em 2007, menos da metade do dinheiro engavetado.

O Fundo Aeronáutico é subordinado ao Comando da Força Aérea Brasileira e tem como um dos seus principais objetivos garantir recursos à modernização e ao aparelhamento dos serviços de segurança e proteção de vôo, construção de aeroportos e obras complementares, como a pavimentação de pistas nos aeroportos já existentes. O regulamento do fundo, que foi aprovado em 1957, estabelece que seus recursos ?só podem ser aplicados em benefício do Ministério da Aeronáutica e de sua representação?. E todo mundo sabe que a Aeronáutica reclama, e com razão, de falta de recursos.

Essa dinheirama toda de onde vem? A maior parte, das tarifas pagas pelos passageiros e empresas aéreas. É dinheiro do povo que vai para o Tesouro, lá faz pose de superávit enquanto a aviação entra em colapso a partir da queda, no ano passado, do avião da Gol, que deixou mais de uma centena e meia de mortos, e agora o da TAM, que matou duas centenas de pessoas. Mas os acidentes continuam, sem vítimas fatais, mas, como disse Lula no seu discurso, o governo pode prometer tudo, menos que não ocorrerão novos desastres na aviação civil. Dias atrás, caiu parte do acabamento do teto do setor de desembarque do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas. Um avião da TAM, igualzinho ao que caiu em Congonhas, fez um pouso não previsto em Londrina e ficou por lá. Uma parte do revestimento de uma turbina descolou-se em vôo. O Boeing 707 prefixo KC-137, da FAB, estava transportando estudantes universitários do Projeto Rondon e uma parte do revestimento externo de uma das turbinas soltou em pleno vôo. Estava sobre a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, e os pilotos tiveram de retornar à cidade, conseguindo pousar.

Não é preciso ser especialista para constatar que além das pistas, dos serviços de terra e seus equipamentos, também a frota aérea está com problemas, provavelmente de manutenção por falta de dinheiro. Reais que o governo segura com ?mão-de-vaca? para exibir superávits. Lula, ao confessar que tem medo de avião, não está sozinho. Nós todos, nessa situação, também estamos tremendo de medo.