Aguarda-se para hoje a chegada ao Congresso de medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a finalidade de transferir para a área civil o sistema de controle do tráfego aéreo no País. A tardia iniciativa do governo foi tomada depois de seis meses de crise continuada nos principais aeroportos, com atrasos e cancelamentos de vôos e a culminância do descrédito das autoridades do setor, e da própria Presidência da República, na semana passada, quando o problema atingiu os limites do intolerável.

Segundo a interpretação da imprensa, não contestada pelo governo em momento algum, a reação dos sargentos controladores de vôo em Brasília, Manaus, Recife e São Paulo, pontos estratégicos de toda a malha aeroviária nacional, com reflexos inevitáveis nos demais aeroportos, assumiu a conotação de motim, com a quebra da hierarquia militar. Mais grave foi a desautorização expedida pelo Planalto, sustando a ordem de prisão dada pelo brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, para a prisão de pelo menos 18 cabeças do movimento rebelde.

Abstraídas as questões conhecidas da política salarial, condições de trabalho, equipamentos sucateados, o que houve foi a crua exibição da volatilidade da presença governamental em áreas vitais, inclusive para a segurança, como o controle do tráfego de aeronaves no espaço aéreo nacional, afetando em escala inaceitável a operação das companhias internacionais.

O governo foi literalmente levado às cordas e agora corre contra o tempo, na tentativa de pôr cobro a uma crise anunciada com todas as letras, apressando-se a colocar a remendar de forma atabalhoada o roto tecido da confiabilidade popular. Com isso, fica arrombada a cancela para a implantação, autorizada pelo STF, da CPI do Apagão Aéreo.

A MP, cujo atraso irresponsável contribuiu para o aprofundamento de mais esse fosso entre governo e sociedade, propõe a transferência de 1,5 mil dos 2,4 mil controladores de vôo para o novo Controle da Circulação Aérea Geral, vinculado ao Ministério da Defesa.

O controle imediato da situação vai evitar danos irreversíveis e desarmar os que pensam no impensável.