Médicos usam terapias alternativas para atender participantes do FSM

O lema do Fórum Social Mundial de que um novo mundo é possível com a ampla participação da sociedade civil está presente não apenas nas salas de reuniões ou nos debates promovidos às margens do rio Guaíba, em Porto Alegre. Dentro do Acampamento da Juventude, onde quase 20 mil jovens dividem espaço com barracas e tendas, uma espécie de oca indígena apresenta o modelo de um sistema de saúde com a ampla participação da comunidade local.

Montado em forma de espiral para evitar que qualquer lado do espaço exerça influência sobre quem se aproxima, o Espaço Saúde e Cultura Ernesto Che Guevara reúne voluntários e profissionais de saúde dispostos a atender a comunidade com a participação ativa de todos. Ao invés de médicos sentados atrás de mesas, ou mesmo enfermeiras com uniformes e materiais de atendimento médico, os voluntários montaram pequenas salas com terapias alternativas de tratamento.

A concepção do espaço é baseada na teoria de que a cura das doenças não deve ser feita apenas depois que elas se manifestam. "Os serviços de saúde só são procurados quando estamos doentes. Mas temos que promover a cura de uma doença antes dos seus sintomas. E a comunidade tem que participar desse processo. Não adianta passar um remédio se quem o recebeu não está convencido da sua necessidade", disse o coordenador do Espaço Saúde e membro da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde, Osvaldo Peralta.

As atividades desenvolvidas no espaço saúde são massagem, homeopatia e quiropraxia, entre outras. O espaço é aberto a todos os jovens do acampamento ou participantes do Fórum. Basta estar disposto a receber o atendimento oferecido pelos voluntários ? que são médicos, enfermeiros, profissionais de saúde ou líderes comunitários que aprenderam na prática os ensinamentos da cura. "Às vezes, pessoas dos movimentos populares têm uma formação mais profunda do que a recebida na academia", ressaltou Peralta.

A maioria dos voluntários do Espaço Saúde veio de longe. São integrantes dos diversos movimentos da área de saúde que receberam apoio do governo federal para participar do Fórum. No total, o Ministério da Saúde disponibilizou R$ 195 mil para gastos de logística que permitiram a participação dos movimentos sociais. A montagem do Espaço Saúde, no entanto, foi financiada pelo Conselho Organizador do FSM. "Conseguimos esse apoio através da nossa articulação com o ministério. Chegaram aqui 11 ônibus de todo o país para essa atividade", disse o coordenador do espaço.

Osvaldo Peralta espera que o governo possa aproveitar as idéias apresentadas no Espaço Saúde para, no futuro, implementar nas unidades de saúde do país o mesmo modelo. "O governo está olhando o acampamento. A nossa âncora desde o início desse projeto foi o Sistema Único de Saúde. Reafirmamos o SUS como modelo de atenção que precisa passar por algumas mudanças", disse Osvaldo.

A médica Vera Dantas veio do Ceará para participar do projeto. Voluntária do Espaço, ela defende a descentralização do modelo de saúde pública no Brasil. "Muitos médicos não respeitam o saber construído pela população. E são saberes que foram se construindo em práticas contra-hegemônicas. Cuidar da saúde vai muito além do que simplesmente cuidar de quem tem uma enfermidade", afirmou.

Além do atendimento aos participantes do Fórum, o Espaço realiza uma série de atividades culturais dentro da concepção de que um centro de saúde deve trabalhar o toque, a conversa, a humanização do paciente. São oferecidas diariamente palestras educativas e atividades em grupos de trabalho para os jovens. À noite, os voluntários fazem blitz em festas do Acampamento da Juventude para distribuir camisinhas e alertar sobre o rismo de doenças sexualmente transmissíveis.

Tudo isso tornou o Che Guevara um dos lugares mais disputados do Acampamento da Juventude. "Todos os dias venho aqui para relaxar, conhecer gente e aprender um pouco mais. Adorei a iniciativa e acho que ela mostra qual a verdadeira essência do Fórum Social Mundial: mostrar que um mundo melhor é possível", disse a estudante Marina Alves, do Rio de Janeiro.

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