Uma manobra do governo impediu hoje a votação do relatório parcial apresentado na CPI dos Correios, que pede o indiciamento do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza por tráfico de influência, crime de falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude em licitação, crime eleitoral por uso de caixa dois e improbidade administrativa. Em 52 páginas, o relatório acusa Delúbio e Valério de desviarem recursos públicos para financiar o PT e integrantes da base aliada.
Elaborado pelo relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), e pelo sub-relator de movimentação financeira, deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), o documento afirma ainda que é "uma farsa" a tese defendida pelos aliados do Palácio do Planalto de que os recursos recebidos pelo PT foram fruto de empréstimos de R$ 55 milhões feitos pelas empresas de Valério. O pedido de indiciamento de Valério e Delúbio será encaminhado ao Ministério Público somente depois da votação do relatório, o que deverá ocorrer daqui a dez dias. Sem mencionar a palavra "mensalão", o relatório afirma que os empréstimos feitos pelas empresas de Valério eram esparsos, "enquanto a distribuição dos recursos era feita de forma sistemática e ao longo dos meses". "Não era um empréstimo bancário e um posterior repasse ao PT que ligava o PT ao Marcos Valério. Pode-se concluir que havia uma relação de repasses que não dependia desses recursos", diz o o documento.
Inconformados com a conclusão do relatório, os aliados do governo pediram prazo para analisar o documento. Os petistas acusaram os relatores de parcialidade por terem descrito apenas as operações feitas por Valério, a partir de 2003, com o PT. "A CPI tem documentos e depoimentos que mostram que esse mecanismo foi engendrado e funcionava desde 1998", disse o deputado Maurício Rands (PT-PE), referindo-se a esquema montado por Valério na campanha à reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998, do hoje senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
"Essa relação de promiscüidade não começou em 2003, no governo Lula", completou o petista, um dos que pediram prazo para análise do relatório. "É uma parcialidade dos relatores dizer que esse esquema começou em 2003. Não posso concordar com isso", reagiu a senadora Ideli Salvati (PT-SC). "Não iremos ocultar nenhum fato. Doa a quem doer. Mas este é um relatório que trata apenas da contabilidade de Valério a partir do ano 2000", argumentou o relator Serraglio. "Esse relatório será ampliado mais a frente", observou Gustavo Fruet.
No relatório, Fruet e Serraglio apontaram o Banco do Brasil como uma das estatais que podem ter repassado recursos públicos para o esquema de caixa dois operado por Marcos Valério para o PT. Cita ainda que os depóstios de valor elevado feitos pela a Usiminas, a Telemig Celular e a Amazônia Celular, as duas últimas administradas até recentemente pelo banqueiro Daniel Dantas, para contas da empresa de Valério também estão sendo invesgados pela CPI dos Correios.
O documento mostra que os recursos distribuídos ao PT e a aliados saíram de uma conta de Valério no Banco Rural. O relatório lista 31 empresas e pessoas que depositaram R$ 72,3 milhões nesse conta, no período de 2003/2004. Desse montante, segundo informaram os relatores, R$ 46,6 milhões foram repassados por Valério a pessoas indicadas por Delúbio. No relatório, Fruet e Serraglio também listaram o nome das 120 pessoas, as quais Valério afirma ter repassado recursos, que totalizam R$ 47,7 milhões.
Nas 52 páginas, os relatores observaram ainda que a SMP&B, a DNA e a Grafitti – três empresas que têm Valério como sócio – contraíram uma dívida com os empréstimos obtidos junto ao BMG e ao Rural que corresponde a 55,87% de sua receita bruta de 2003 e 2004, segundo dados fornecidos à CPI pela Receita Federal. O documento levanta também suspeitas sobre a atuação das diretorias do BMG e do Rural na concessão dos empréstimos para as empresas de Valério.
"Com o patrimônio que dispunha, Delúbio Soares não tinha condições financeiras de garantir empréstimos dados ao PT que eram da magnitude de R$ 55 milhões. Também ficam sob suspeição as diretorias responsáveis pelos bancos BMG e Rural, que autorizaram tais empréstimos. Embora concedidos sem devidas garantias, não executaram a dívida enquanto não havia sido instalada a CPMI dos Correios, o que fortalece as suspeitas de que não se tratava de empréstimo", diz o relatório.


