Já no Oriente Médio em busca de petrodólares e outros negócios de interesse brasileiro, o presidente Lula deve estar pensando com seus botões de que forma resolver o maior problema de seu governo: o desemprego. Ele, que prometeu – e foi a promessa mais solenemente já feita enquanto candidato – criar pelo menos dez milhões de novos postos de trabalho ao longo de quatro anos, está chegando ao final do primeiro com um saldo incomodamente negativo. Se criou algum, o número dos que desapareceram é maior que os novos que surgiram. E o índice de desemprego já navega na casa dos 13% neste ano do redescobrimento do Brasil (é forçosa a lembrança do discurso de posse de Lula), formando um inusitado exército calculado em 23 milhões de descamisados.

No megaencontro já marcado para o dia 18 próximo, o governo promete uma completa avaliação de desempenho. Já se antecipa um tom otimista para pífios resultados, exceto um: nunca o governo arrecadou tanto. De um lado, manteve o torniquete sobre os contribuintes e, de outro, colocou para funcionar a plenos chips o “Big Brother” – nome do supercomputador da Receita Federal que, cruzando dados de diversas áreas, elevou o volume de infrações aplicadas sobre empresas em 73,7%, relativamente a igual período do ano passado. O esforço eletrônico do Leão representou encaixe superior a 33 bilhões de reais, mais quase três bilhões de reais advindos da fiscalização sobre pessoas físicas, também bisbilhotadas.

Já antes dos relatórios circunstanciados, o presidente gaba-se de estar à frente de uma equipe que, bem ou mal, sobreviveu ao ano inteiro. Adiou, para isso, o anúncio de seu novo ministério, que somente virá depois de sacramentada a aprovação da reforma da Previdência (esta atribulada por equivocados métodos de combate à fraude) e tributária, cuja parte principal fica para depois, para azar dos contribuintes. Da reforma agrária pouco fala: estaria aqui seu maior fracasso depois daquela relativa à criação de empregos, já que o número de assentamentos mal chegou à casa dos 30 mil, quando a promessa era bem mais alta. Em ambos os casos, as esperanças se renovam sem medo da matéria descumprida: o governo jura que chegará ao final do mandato fechando a meta de 530 mil famílias assentadas.

O governo dirá que o espetáculo do crescimento (que fazer?) infelizmente não veio. Mas que, mesmo assim, a nação precisa estar atenta ao esforço de Brasília sob o brilho da estrela do PT, que inverteu expectativas (maior parte criada por ele próprio antes, durante e depois das eleições): em novembro-dezembro do ano passado, previa-se a repetição de fenômenos que, no passado distante, dizimariam dinossauros; menos mal, chegamos ao final do ano com estabilidade interna e pequenos sinais de retomada da confiança dos investidores externos. Já não é o bastante? Ano que vem será “infinitamente” melhor que este que termina, profetiza Lula, o metalúrgico-presidente, que não afirma nem desdiz seus planos de reeleição.

Mesmo no campo minado da biossegurança e do meio ambiente, que críticos e apressadinhos tenham paciência e a sabedoria de esperar. Ele, e só ele, que amassou o barro durante quatro embates eleitorais, sabe cada compromisso que tem com o Brasil. “E neste governo, nem direita nem esquerda farão acontecer nada sem que haja um debate democrático, em que a vontade da maioria prevaleça”. Bravatas à parte, “aprendi a fazer política na confrontação e vou exercer o governo desse jeito. Se eu tivesse medo de grito, nem teria nascido”…

Enquanto estiver ouvindo gritos de militantes bem nutridos (como ocorreu na sexta-feira última), Lula provavelmente dará a volta por cima. Tem carisma e discurso pronto, além de todos os relatórios encomendados a seus ministros e assessores. Mas a grande pergunta é se seu governo, de fato, terá condições de atender, dentro de prazos razoáveis, não apenas quem tem fome, mas principalmente quem tem vontade de trabalhar e não encontra onde. Quando esses começarem a gritar também, que dirá o presidente?