Lula disse o que os cerca de três
mil trabalhadores rurais sem-terra
não queriam ouvir.

Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ontem para cerca de três mil trabalhadores sem-terra em Brasília: “Se um dia tiverem que me julgar, pela nossa relação de amizade, deixem para me julgar no final do meu governo. Não julguem precipitadamente”. Lula anunciou que pretende até o fim de seu governo assentar 400 mil famílias.

Antes do discurso, Lula cantou um dos hinos do movimento dos sem-terra, mas não usou boné do MST, como no encontro anterior. O presidente começou o discurso bem-humorado, brincando com uma criança que teria o chamado de “gordo”. Logo depois, o presidente defendeu o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que foi alvo de críticas do líder do MST, João Pedro Stédile. O líder criticou os acordos do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a falta de recursos para a reforma agrária, citando nominalmente o ministro Palocci.

“Eu queria dizer aos companheiros que falaram aqui pelo movimento. O Palocci não tem culpa. Graças a Deus, a gente tem o Palocci no Ministério da Fazenda. Porque a decisão nunca é do Palocci. A decisão é do governo”, declarou o presidente. Lula pediu paciência aos trabalhadores sem-terra, mas garantiu que fará o máximo para fazer a reforma agrária no País. “Nem sempre o caminho menor é o mais seguro para a gente fazer as coisas (…) Nós vamos fazer a reforma agrária com a tranqüilidade que um governo comprometido faria e é possível fazer”, disse.

O presidente aproveitou para rebater críticas do uso do boné do MST. “Vocês viram a confusão que deu quando eu coloquei o chapéu dos sem-terra na cabeça, como se fosse a primeira vez na vida. Eu coloco chapéu dos sem-terra na cabeça, da Contag e da CUT, há pelo menos vinte anos”.

Outro tema do discurso foi comércio internacional. Lula falou que deseja trazer outros países para o G-20. “Nós queremos um comércio em que sejamos tratados em igualdade de condições, em que os países ricos não subsidiem a sua agricultura e impeçam a nossa de chegar lá (…) Nós não queremos afrontar ninguém, só queremos ser respeitados”, completou.

Lula anunciou a meta de assentamentos de 400 mil famílias durante todo o governo, incluindo este ano. Outras 127,5 mil famílias serão beneficiadas por meio do crédito fundiário, disse ele. O presidente foi ao Pavilhão Parque da Cidade – onde os sem-terra estão acampados – acompanhado do presidente do PT, José Genoino, do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e do ministro Luiz Dulci.

Stédile ataca Palocci e a economia

Brasília – Em discurso inflamado, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile, atacou o ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, e a política econômica do governo. Também pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não tenha medo dos latifundiários, da bancada ruralista no Congresso e dos banqueiros. Para uma platéia de 3 mil sem-terra no Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, no Parque da Cidade, em Brasília, o economista Stédile citou Palocci duas vezes e, chamando o presidente de “companheiro Lula”, disse que a mudança do modelo econômico somente será feita pela reforma agrária.

Stédile afirmou que os sem-terra confiam no companheirismo e nas boas intenções do presidente. “Eles queriam lhe dizer que lá na nossa base, escutando rádio, batemos palmas quando você puxou a orelha do Palocci e disse: ?O FMI não manda mais no Brasil?”, gritou. Interrompido por aplausos entusiasmados da platéia, Stédile se referia à trombada do início do mês, quando o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, disse que o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) estava fechado e Lula, da África, garantiu que não.