O ex-deputado paulista Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal, que renunciou ao seu mandato na Câmara Federal por ter recebido dinheiro do caixa 2 do PT e não desejar a longa inelegibilidade que uma condenação lhe custaria, insiste que o presidente Lula sabia da contribuição do seu partido para a campanha do aliado que indicou o vice-presidente da República.

É, entretanto, uma voz isolada. A maioria dos políticos que jogam essa partida no gigantesco estádio do mensalão insiste que o presidente da República de nada sabia. Tarso Genro, presidente provisório do PT, insiste que Lula ignorava os mensalões e o caixa 2. O mesmo diz José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, que recebeu de Lula poderes para ser o presidente da República de fato, coordenando os demais ministérios e as relações do governo com o Congresso.

Delúbio Soares, o tesoureiro afastado do PT, que controlava a arrecadação de dinheiro de empresas, empréstimos bancários feitos em nome de terceiros com aval de líderes petistas e, segundo as versões até aqui divulgadas, tinha o supremo poder de dizer quem receberia o dinheiro, também afirma de pés juntos que Lula de nada sabia. Os poucos que dizem que Lula sabia o fazem ressabiados, sem provas, apenas baseados em suposições.

O ministro Antônio Palocci foi acusado de, como prefeito de Ribeirão Preto, receber uma propina mensal de R$ 50.000,00, que encaminhava ao diretório nacional do PT. Ele nega peremptoriamente a maracutaia. Afirma, entretanto, que se existisse e funcionasse em dois anos continuados de sua gestão, seria impossível que não soubesse. Afinal de contas, era o chefe do Poder Executivo do município paulista e tinha de ter conhecimento das coisas relevantes que ao seu redor aconteciam e em seu nome eram perpetradas.

Mas Lula de nada sabia. Mais não sabia, pois por diversas vezes declarou que ignorava que era tão difícil governar. Chegou a dar razão àqueles que diziam que há uma diferença essencial entre ser oposição e ser governo. Ser oposição é muito mais fácil, pois basta criticar e apresentar fórmulas de mudanças, que podem ser meros palpites, idéias impraticáveis.

Não sabia também como resolver problemas como a promoção do desenvolvimento econômico, até que inventou as PPPs, parcerias com a iniciativa privada que até agora não funcionaram. Nem como criar os milhões de empregos que prometeu sem o desenvolvimento para o qual não há dinheiro, pois o que sobra como superávit em conta corrente vai para o pagamento dos juros da dívida externa.

Os programas sociais que Lula desenvolveu com a maior e melhor das intenções, como o Fome Zero, têm muito do que herdou do governo anterior, porém foram montados de forma tão açodada e sem controles que se prestaram a gravíssimas irregularidades. Prefeitos fizeram politicagem com o dinheiro destinado a matar a fome dos pobres, distribuindo-o entre eleitores, cabos eleitorais e até parentes.

A acreditar-se na versão de que Lula nada sabia sobre o mar de lama que o cercava, com caixa 2, mensalões e contas em paraísos fiscais, temos de concluir que ele montou um governo com excesso de cargos, apaniguados, gente ansiosa por ganhar dinheiro fácil e postura ética de extrema fragilidade. E sem instrumentos de controle. As coisas andavam ao deus-dará e havia, ao redor do presidente, uma blindagem que foi capaz de mantê-lo em desastrosa ignorância. Foi tapeado. Fomos tapeados.