O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, concordaram hoje em acelerar as negociações para concluir o acordo entre a União Européia e o Mercosul antes da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O governo alemão aproveitou a visita de Lula a Berlim para propor que o tratado que cria uma área comercial entre os dois blocos seja concluída antes de 2005, data inicialmente programada para que a Alca entre em vigor.

?Não queremos perder espaço e vemos a Alca como uma corrida pelos mercados latino-americanos?, afirmou um membro do gabinete de Schroeder. ?Se a Alca for criada antes do acordo entre o Mercosul e a UE, acreditamos que perderemos oportunidades comerciais na região, que será dominada por produtos norte-americanos.?

Segundo ele, Berlim não quer que se repita o que ocorreu nas relações da UE com o México. Os europeus perderam quase 50% de seu mercado naquele país quando os Estados Unidos criaram a Área de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), derrubando todas as barreiras para os produtos entre o Canadá, Estados Unidos e os mexicanos. Para recuperar o mercado mexicano, a UE foi obrigada a fechar um acordo com o país. ?Mas mesmo assim perdemos muito e não estamos dispostos a perder mais uma vez?, disse o assessor de Schroeder.

O deputado Lothar Mark, representante dos parlamentares alemães para a America Latina, também se reuniu com o presidente brasileiro e deixou claro que pretende que as negociações sejam aceleradas. ?Achamos que devemos modificar o cronograma das negociações para possibilitar um acordo o quanto antes?, afirmou o deputado. O difícil, reconhecem os alemães, será convencer os franceses a aceitarem um bloco signifique o fim das barreiras à agricultura brasileira.

O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, confirmou que o governo alemão deixou claro sua proposta. ?Vamos avaliar?, disse o ministro. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, destacou que o País precisa se aproveitar de sua relação ?privilegiada? com a Alemanha para conseguir que as negociações entre Mercosul e UE avancem. Amorim, porém, alertou que para que o Brasil concorde em acelerar as negociações, a proposta alemã terá que incorporar os temas agrícolas.

Comissão – Como parte da ofensiva alemã, os dois países também acertaram hoje a criação de uma comissão para propor medidas concretas de liberalização do mercado agrícola entre Brasil e Alemanha. ?A comissão será formada por representantes do governo e do setor privado dos dois países?, explicou Furlan, que acredita que, com o grupo, as negociações entre o Mercosul e a UE possam ser facilitadas.

A primeira reunião da comissão ocorre em junho. Antes, em fevereiro, Furlan confirmou que o Mercosul fará sua proposta à UE. Em maio, os negociadores dos dois blocos se reúnem em Brasília sob a presidência de Lula para mais uma etapa do processo de criação do bloco.

Na avaliação do governo brasileiro, quem ganha com a corrida entre os Estados Unidos e a UE são os países latino-americanos, que tem a possibilidade de barganhar resultados positivos para suas economias.

?Temos 25% do comércio com os Estados Unidos e 25% com a UE. Não podemos perder esse equilíbrio com a criação da Alca?, explica Amorim, que aponta que as negociações comerciais foram um dos temas principais dos encontros de Lula tanto com o presidente da Alemanha, Johannes Rau, como com o chanceler Gerhard Schroeder.