Precisamos de um mundo mais solidário. Uma equação que leve à redução ou ao ideal fim da miséria que sacrifica milhões de seres humanos no continente africano, na Ásia, na América Latina e, em menor quantidade, mas igual sofrimento, em países mais desenvolvidos. Essa equação deverá ser procurada em modelos políticos e econômicos, e aí não há como escapar do exame de ideologias já existentes, algumas já experimentadas e fracassadas, ou a criação de sistemas novos que produzam os resultados almejados. Almejados e vitalmente necessários, pois os países ricos e as classes mais abonadas começam a se convencer de que de uma maior igualdade entre os seres humanos depende a sobrevivência até mesmo dos privilegiados. É impossível viver bem em meio à miséria, pois esta é o caldo de cultura da violência, que vemos crescente e assustadora.

Há poucos dias, na Cúpula Ibero-Americana realizada em Santiago do Chile, assistimos a uma desrespeitosa intervenção do presidente-ditador da Venezuela, Hugo Chávez, que fez chacota com o presidente do Brasil e acusou um ex-chefe de Estado da Espanha de ser fascista, o que provocou severa reprimenda do rei Juan Carlos.

Vestindo a carapuça ou apenas revelando bom humor, o presidente Lula respondeu a Chávez, que ironizou dizendo que o Brasil vai entrar na Opep, associação dos países grandes produtores de petróleo, e que o presidente brasileiro virou um ?magnata do petróleo?. Disse que o nosso País, em razão da descoberta de um poço de petróleo muito promissor em águas profundas, na bacia de Santos, quer entrar na Opep. E aceitou a idéia de montar uma companhia petrolífera brasileiro-venezuelana para vender petróleo e derivados a preços mais baixos para os países pobres.

Sabemos, e Lula também sabe, que o novo campo petrolífero é por enquanto apenas uma esperança. Sua exploração deverá enfrentar dificuldades técnicas e de financiamento e demandar vários anos para se tornar produtivo, se é que tal vai ser possível. O que chama a atenção é a idéia de uma indústria petrolífera binacional sem preocupações com o lucro, fazendo benemerência com os países pobres e necessitados. Talvez não benemerência, mas solidariedade. É preciso discutir o assunto, mesmo que essa binacional de petróleo seja fruto das piadas de mau gosto de Chávez, pois envolve conceitos políticos e econômicos importantíssimos.

Ou se busca o preço justo e se entende que este é o de mercado, ou se subsidia para compradores pobres e necessitados.

Comentando a desastrosa reunião de Santiago, lembramos que o Brasil deve pensar várias vezes antes de decidir vender hipotéticas partidas de petróleo exportável a preços mais baixos para ajudar os pobres, pois temos um estoque de pobres numeroso e em situação tão miserável quanto os mais carentes do mundo por aqui mesmo.

A idéia de benemerência com petróleo acaba de ser contrariada pela própria Petrobras. A empresa acaba de divulgar que não planeja mais investir em um projeto de gás na Venezuela, que, segundo analistas, foi suspenso devido a desentendimento sobre o uso do produto. ?Estamos fora do projeto de Mariscal Sucre?, informou o presidente da nossa empresa de petróleo, José Sérgio Gabrielli, acrescentando: ?Nossa avaliação acerca de Mariscal mostrou que ele não é atraente para nós?.

Analistas informam que a Venezuela tencionava usar o gás que viesse a ser produzido para abastecer o mercado local, enquanto a Petrobras preferia liquefazer o produto para se lançar no lucrativo mercado internacional.

Assim, enquanto Lula fala em combustível mais barato para os pobres, a própria Petrobras desmancha uma associação com a Venezuela porque ambiciona produção para ganhar dinheiro. Para os marxistas, ?o lucro é um roubo?, mas no mundo atual ele é mola para o desenvolvimento. E, não obstante haja quem duvide, instrumento para tirar da miséria povos que historicamente dela não conseguem escapar. Inclusive as camadas mais baixas da nação brasileira.