O que a lesma tem a ver com o camaleão? Aparentemente, quase nada, a não ser o fato de que ambos podem se arrastar pelo chão. Estudando mais atentamente as qualidades desses dois animais, vemos que eles têm algo em comum: a capacidade transformativa. O pequeno molusco, sufocado por uma camada de sal, derrete e se transforma em água. O garboso lagarto, por sua vez, tem a capacidade mimética de vestir as cores do ambiente em que se instala, saindo do verde das folhas para o marrom dos galhos secos com a maior facilidade. Pois bem: esses dois transformistas estão servindo de exemplo a muitos políticos brasileiros, dentre eles importantes lideranças políticas e até pré-candidatos à presidência da República.
A dança das cadeiras e de partidos, que tem caracterizado as mudanças de passos e de rumos de parcela ponderável de nossa representação política, fez escola e, agora, está sendo substituída pela dança das cabeças. Às vésperas do maior pleito eleitoral da história republicana, começamos a ver gente dizendo que nunca disse o que disse e outros inocentando antigos adversários. Os encontros das cabeças se dão no meio do oceano do utilitarismo político, onde esquerdistas radicais, transformados em centristas moderados, se encontram com conservadores renitentes, agora vestidos com o manto das forças progressistas. Lula e Quércia, inimigos ferozes do passado, são os ícones mais visíveis desse ciclo político que se inaugura sob a égide do oportunismo eleitoreiro e do fisiologismo de ocasião. Parecem, agora, velhos companheiros, irmanados pelo ideal pátrio, que, em tradução rasteira, quer significar fechar os olhos ao passado, abrir os ouvidos para os cochichos do presente e apertar as mãos para selar o pacto do futuro.
Quem te viu, quem te vê. É assim que Lula está sendo distinguido pelos olhos mais atentos da sociedade. Quem te viu, quem te vê. É assim que Quércia, que, por anos a fio, desfraldou a bandeira suja da maldição política, agora está sendo distinguido por parcela apreciável dos formadores de opinião. Lula e Quércia no mesmo barco é algo semelhante a óleo e água na mesma garrafa. Não se amalgamam, não se misturam, e só se juntam pela pressão dos interesses. Mas não se pode falar apenas deles. Para ser justo, as negociações que juntam pólos opostos, estão atingindo pesadamente as forças políticas encasteladas em todos os partidos. O maquiavelismo chegou com força nesse momento pré-eleitoral, ditando, nos Estados, parcerias de conveniência, integração de opostos, encontros inusitados de perseguidores e perseguidos.
Diz-se que a ética política é a ética das circunstâncias, adoçada com o mel dos interesses de grupos. Será que devemos apostar
nesse conceito? Mais ainda: será que a sociedade está deixando passar os acordos espúrios que emporcalham os espaços da dignidade e da moral? Pelo menos, os grupamentos formadores de opinião e os setores mais esclarecidos da sociedade, aí incluídos os núcleos das entidades organizadas, observam de perto os movimentos e as articulações entre partidos e lideranças. É muito pouco provável que as pesquisas de opinião detectem a contrariedade social no que concerne aos chamados acordos espúrios entre os políticos. Mas, no momento oportuno, o eleitorado mais esclarecido tornará visível a sua insatisfação.
As lesmas políticas que se derretem diante do sal, perdendo identidade, serão seguramente castigadas. E os camaleões políticos que mudam de cor, pela mimese dos momentos e circunstâncias, não atravessarão, incólumes, os caminhos da campanha eleitoral. A sociedade está adensando suas taxas de racionalidade. Não é, por acaso, que entre 60% a 70% do eleitorado ainda não têm candidato definido. E, do grupo que já definiu seu voto, muitos admitem a possibilidade de mudar de rumo. Os jogos de poder, as negociatas, os acordos aéticos, a politicalha, a irmandade de conveniência, a falsa união de opostos, tudo isso virá à tona no momento exato, com a força de um furacão.
O mínimo que se exige de um político é coerência, que significa compromisso com o ideário, determinação de perseguir determinadas metas e objetivos. Mesmo na política, a ética se faz necessária. Sem ela, a sociedade estará sujeita a bandos de oportunistas, larápios eleitoreiros e mistificadores de plantão. Felizmente, a mídia e as entidades organizadas da sociedade, que se multiplicam por todos os espaços nacionais, estão atentas aos perfis indignos, aos negócios escusos e aos discursos mirabolantes, plenos de promessas vazias.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail:gautorq@gtmarketing.com.br