O julgamento de Suzane von Richthofen começa na segunda-feira, 5 às 13 horas, no Fórum da Barra Funda. Ao longo de pelo menos dois dias, promotores e advogados de defesa vão se engalfinhar em uma guerra pela explicação mais convincente para a dúvida que há quatro anos intriga o País: o que levou a menina loira bem-nascida a abrir a porta de casa para que o namorado, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Christian, entrassem e matassem seus pais com golpes de barras de ferro?

A acusação arrolou como testemunhas policiais e parentes de Suzane – entre eles o irmão, Andreas – para provar que o engenheiro Manfred von Richthofen e a mulher, Marísia, foram golpeados enquanto dormiam porque tinham em casa uma filha capaz de planejar o crime para pôr as mãos na herança da família.

Já a defesa convocou amigos de faculdade, vizinhos da família e uma ex-empregada para entrar em campo, descrevendo a trajetória de uma moça de conduta irretocável e temperamento doce, mas de cabeça virada por influência do rapaz que a iniciou na vida sexual e no uso de drogas.

O destino de Suzane e dos irmãos Cravinhos será decidido por 7 jurados, sorteados de uma lista de 21. Acusação e defesa podem recusar, cada uma, até três pessoas. E a briga já começa nessa fase. "Vou recusar homens e escolher mulheres. Só elas entendem como Suzane foi dominada pelo poder sexual de quem tirou a sua virgindade", afirma o advogado de defesa Mauro Otávio Nacif. "Não adianta tentar artifícios. O debate vai ser sobre a fixação da pena", rebate o promotor Roberto Tardelli.

A acusação vai falar primeiro. Durante pelo menos quatro horas, o promotor Tardelli deve alinhavar a tese que expõe desde que pegou o caso. "Vou dizer ao júri que essa moça planejou friamente a morte dos pais. É uma assassina pelo motivo mais torpe: dinheiro", afirma Tardelli. "Não era uma virgem, uma abduzida, que participou sem ter noção do que fazia. Ela concebeu e planejou o crime. E, nas horas que o antecederam quantas vezes ela pôde dizer ?não??

O promotor também pretende dizer que Suzane chamou a mãe para almoçar no dia em que abriria a porta para os assassinos, como uma "despedida macabra". E vai detalhar como ela, na mesma noite deixou o irmão em uma lan house, foi de carro buscar os assassinos, voltou dirigindo e acenando para o vigia, entrou primeiro na casa para checar se os pais dormiam, abriu a porta para os Cravinhos – que tiveram o cuidado de vestir meias-calças para evitar que pêlos caíssem no quarto e favorecessem algum tipo de exame de DNA. E, depois do assassinato, foi para um motel forjar um álibi.

A defesa entra em campo também com tese já tornada pública – e com a catimba típica das grandes brigas. "Revelei nossa estratégia antes para aterrorizar os promotores. Eles estão morrendo de medo. Eu posso perder esse caso, eles não. É o julgamento mais importante em décadas. Se ela é absolvida, a carreira deles acaba", diz o advogado Nacif.

Os defensores vão alegar inexigibilidade de conduta diversa (não poderia agir de outra forma) e coação moral irresistível. "Se ela não tivesse conhecido o Daniel, seus pais estariam vivos hoje?" é a pergunta-chave lançada ao júri. As testemunhas vão relatar como a família von Richthofen tinha vida harmônica – até a chegada de Daniel. E, diante de uma platéia formada por 300 pessoas sorteadas, o júri vai dar a palavra final na peleja entre a assassina ambiciosa e a virgem drogada.