Foto: Átila Alberti

O trabalho na lavoura consumia a melhor parte de sua energia física, mas a cabeça, por dentro, era só cuidados com os filhos.

Maria da Luz pensava, sem saber porquê, na filha mais nova. O trabalho na lavoura consumia a melhor parte de sua energia física, mas a cabeça, por dentro, era só cuidados com os filhos. Enquanto a enxada trabalhava, o pensamento voava para junto deles, em casa, sob os cuidados de Jacira, a mais velha. Lembrava da menina e lembrava de si mesma, aos oito anos, a responsabilidade de cuidar dos irmãos, o trabalho na casa de pau a pique, chão de terra batida. A mãe a queixar-se de dor nas cadeiras, os braços amortecidos, a pele envelhecida e pálida. Vida difícil a das mulheres nesse mundo de meu Deus!

O sol já diminuía de intensidade: o olhar deitou-se pela plantação, prazeroso. Tanto trabalho, mas a colheita deste ano prometia fartura. O feijão abundante nas vagens, a mandioca viçosa. Ao longe, Antônio recolhia pás, ancinho e enxada. Sinal de volta para casa. A imagem das crianças relampagueou pela lembrança. Maria da Luz gostava de ouvir, já de longe, a conversarada delas. Sua alegria estava costurada pelo fio das risadas infantis, pelos olhares deles, de continuada surpresa com o que ouviam e viam. Sempre pensara em ter filhos: com as bonecas de pano, com os trabalhos de casa, com as cantigas que sua mãe cantava. Não se queixou nas quatro vezes que pariu. No trabalho duro de sol a sol, somente lembrava de que tudo valia a pena por causa dos pequenos. Jacira, João, Luzia e Anica: cada um diferente, cada um com sua alegriazinha.

Apenas uma mágoa guardada em todos esses anos: a vontade de que os filhos tivessem outro destino, para além da tarefa difícil de tirar alimento da terra que, embora generosa, cobrava o tempo e o suor do trabalho sem fim. Vontade de que eles pudessem, como o filho da Generosa, ir para a escola, tirar diploma, falar bonito e ter o respeito dos outros. Maria da Luz pensava e entristecia, enquanto cresciam em sua direção os filhos na recepção carinhosa, sorrisos e braços abertos. E por onde andava João? Foi buscar água, Jacira respondeu. E já vem ele lá, mãe! Em passos curtos, o balde pesado nas mãos pequenas, João pedia em silêncio mãos caridosas. Anica pendurada no braço, Luzia agarrada na roupa de trabalho, ainda sobrava uma das mãos para ajudar o filho. Assim, fundidos em uma só sombra, seguiam em direção a Jacira e à casa, numa linguagem de quase palavras, e plena comunicação.

A noite chegava e com ela as histórias do dia e dos desejos. Num canto, Antônio lia em voz alta, e aos tropeços, pedaços do jornal que embrulhara os mantimentos trazidos da venda do Zé Catarina. A lida com as palavras lhe custava mais que amansar a terra. Os filhos e a mulher o olhavam com admiração e respeito. Era a parte da vida de que Antônio mais gostava: ele era então o sábio, o mágico, o feiticeiro. Os filhos tinham nos olhos a curiosidade e a vontade de descobrir que truques ele conhecia, para fazer brotar daquele papel sujo palavras diferentes e assuntos desconhecidos até aquele momento. Maria da Luz sentia orgulho e admiração: quantos homens podiam como o seu Antônio entender daqueles mistérios?

Sentada com Anica ao colo, ouvia a voz trôpega do marido enquanto os dedos vasculhavam os cabelos da menina. Os gestos conjugavam carinho e vigilância. Aprendera com a mãe a prevenir sinais de parasitas. O mesmo cuidado dedicado à plantação aplicava aos filhos. De repente, surpresa e atenta persegue entre a trama dos fios de cabelo um intrometido e mal disfarçado piolho. Com agilidade move os dedos na caça ao inimigo. Após alguns segundos, extrai o indesejado e se dispõe a eliminá-lo de vez. Os polegares se apressam para o gesto universal de exercício do poder de morte. Antes que o esmague, acode à lembrança o ensinamento da tradição. O primeiro piolho esmagado contra um objeto traça o destino da criança. Se for sobre o fogão, será excelente cozinheira. Sobre o arado, tudo o que suas mãos tocarem na terra, nascerá abundante e perfeito. Se na máquina de costura, a filha terá o dom de criar de qualquer tecido uma roupa de fadas. Se o animal for esmagado sobre a rabeca de Antônio, a música sairá dos instrumentos com qualidades celestiais.

Maria da Luz pensou em tudo isso com a rapidez de um raio e sem hesitação andou em direção a Antônio, pediu que ele apoiasse o jornal sobre a mesa rústica e deixou sobre as marcas de tinta o corpo destruído do piolho. Sua filha teria o dom das palavras, escritas. Anica lavraria outras terras, acenderia luzes mais brilhantes que as de seus pais, faria mágicas como Antônio, maiores e duradouras.

E assim foi.

Para aqueles que duvidam, afirmo que é verdade. Por ser verdadeiro, invoco o testemunho dos que comigo ouviram esta história. Para os que ainda assim não acreditam, busco auxílio em Shakespeare: ?há mais mistérios…?. Se mesmo assim, a história parecer inventada, recorro ao aprendido: a vontade humana e o desejo de mudar a história são infinitas vezes maiores que um piolho, mas podem nascer dele.

Saiu por uma perna de pato, entrou por uma perna de pinto: quem quiser que conte cinco…