O dólar baixo segurou mais uma vez os preços, garantiu a deflação dos alimentos e levou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a recuar para 0,17% em agosto, ante 0,25% em julho.

A queda de um mês para o outro ocorreu também por causa do menor ritmo de aumentos de grupos importantes para a despesa das famílias, como telefone fixo e combustíveis.

Com a divulgação de dois índices de preços em recuo, nesta terça-feira, – o IGP-DI, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, registrou deflação de 0,79% -, a queda da taxa básica de juros (Selic) a partir deste mês é considerada inevitável por economistas. Além disso, cresce a chance de o Banco Central cumprir o centro da meta de inflação (IPCA de 5,1%) de 2005. De janeiro a agosto, a taxa acumulou variação de 3,59%, o menor índice acumulado em 8 meses desde 1998.

"Quando os juros começarem a cair, este mês, a queda será consistente, será o início de uma série (de reduções)", disse o economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-RJ. "Isso significa que o Banco Central tem todos os ingredientes para baixar os juros. Os últimos quatro meses têm mostrado deflação em vários índices e os juros reais (Selic menos IPCA) estão maiores do que os nominais (Selic), o que é inédito na nossa história", disse o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas.

A gerente do Sistema de Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos, disse que a alta do IPCA de agosto esteve concentrada basicamente em preços monitorados ou administrados, que representaram as oito principais pressões sobre a taxa.

Juntos, esses 8 itens foram responsáveis por uma influência de 0,26 ponto porcentual sobre a taxa, que não ficou acima de 0,17% por causa da influência do dólar baixo sobre preços livres como produtos alimentícios e bebidas (-0,73%) e artigos de limpeza (-0,38%).

Eulina observou que essas deflações são resultado, "basicamente, do efeito do dólar chegando ao varejo". Eulina lembrou que 60% dos insumos agrícolas são dolarizados e, por isso, a moeda americana tem forte peso nos alimentos.

Além disso, há produtos cujas matérias-primas são commodities (cotadas em dólar) e também permanecem em queda, como óleo de soja (que já acumula no ano queda de 13,09%) e farinha de trigo (queda acumulada de 4,04%). A concorrência dos distribuidores provocou a queda do gás de cozinha (-0,45%) e a manutenção de liquidações, simultaneamente à entrada da coleção de inverno, manteve estável o grupo vestuário (0,05%).

As principais pressões de alta no IPCA de agosto, nessa ordem, foram dadas por empregados domésticos (1,86% e 0,06 ponto porcentual no índice geral); água e esgoto (2,39% e 0,05 ponto, por causa de reajustes em Belém e no Rio de Janeiro); telefone fixo (1,15% e 0,04 ponto); passagens aéreas (4,80% e 0,03 ponto); planos de saúde (1% e 0,03 ponto); álcool (1,58% e 0,02 ponto); gasolina (0,34% e 0,01 ponto); ônibus urbanos (0,36% e 0 02 ponto, também por causa de reajustes em Belém).

Tendência

"Há uma nítida evidência de números menores na perspectiva dos últimos 12 meses", disse Eulina. Ela lembrou que a inflação dos últimos 12 meses, até agosto, "trocou" a alta variação do mês no ano passado (0,69%) pelos 0,17% divulgados hoje, levando a taxa em 12 meses a cair de 6,57% em julho para 6 02%.

Em setembro, a expectativa de Eulina é de poucas pressões sobre o IPCA. Thadeu de Freitas e Cunha acreditam que a taxa ficará próxima à do mês de agosto.