O livro ?Cartas à mãe-direto do inferno?, contem cartas de Ingrid Betancourt Pulecio e de seus filhos, Mélanie e Lorenzo Dellye-Betancourt, para sua mãe, foi publicado pela editora Agir, com prefácio de Elie Wiesel, Prêmio Nobel de Literatura, e posfácio do historiador brasileiro Francisco Carlos Teixeira sobre a situação política colombiana. A senadora colombiana, que também é naturalizada francesa, está seqüestrada pelas FARC desde 23 de fevereiro de 2002, quando se encontrava em campanha pela presidência da Colômbia. Nascida em 25 de dezembro de 1961, em Bogotá, filha do ex-senador e ex-embaixador colombiano na Unesco, já falecido, Gabriel Betancourt, e de Yolanda Pulecio, foi eleita duas vezes, como deputada e como senadora, com a maior votação, era militante contra a corrupção, contra o tráfico de drogas, e a favor da causa ambiental. Recentemente, seu segundo marido, Juan Carlos Lecompte, esteve no Brasil em missão junto às autoridades e organizações políticas e populares visando sensibilizar pela campanha pró-liberdade da senadora. Deverá retornar ao Brasil a convite do Partido Verde, em julho, juntamente com o presidente do comitê internacional pela libertação de Ingrid, na França, Odair Lamprea, e com o senador colombiano Luiz Eladio Perez, seqüestrado pelas FARC há seis anos e libertado há cerca de dois meses. O Partido Verde colhe assinaturas nacionalmente em favor da libertação de Ingrid, a serem entregues ao Congresso Nacional. O senador Eduardo Suplicy (PT/SP), em pronunciamento no Senado, enfatizou a necessidade de ação em favor de Ingrid. A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado aprovou requerimento pela imediata libertação da senadora colombiana. No domingo, oito de junho, o presidente da Venezuela Hugo Chávez, em programa de rádio e tv, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele próprio e outros chefes de Estado estão dispostos a intermediar um acordo de paz na Colômbia e concluiu, ao se referir às FARC: ?Vamos, soltem toda essa gente, há anciãos, mulheres, soldados doentes que têm dez anos presos, já basta. Já basta de tanta guerra, já chegou a hora para sentar-se a falar da paz, chamamos todos a buscar esse caminho?.

Prova de vida

?Olhos baixos, mãos cruzadas sobre o colo, cabelos muito compridos e rosto magro e afilado, a mulher transmite dor e desalento em sua imobilidade. Desde a selva, essa foi a ?prova de vida? que mandaram à sua família. Vida, sim, mas vida que parece esvair-se na tristeza e no desalento de quem se sente vencida pelo prolongado tempo de sofrimento dos últimos anos. Na cidade, outra mulher todos os dias manda uma mensagem para a mulher triste que se encontra na selva. Às cinco horas da manhã, Yolanda Pulecio faz chegar pelas ondas do rádio a própria voz até sua filha Ingrid Betancourt. E na comunicação diária das duas a esperança consegue abrir um caminho, titubeante e frágil, mas o suficiente para manter acesa uma chama por seis longos anos?, escreveu a teóloga Maria Clara Lucchetti Bingemer (www.adital.com.br). Essa e outras mensagens podem ser encontradas em vários sites da internet que alimentam a luta pela libertação de Ingrid em plano mundial.

Trechos da carta de Ingrid

?Selva colombiana, Quarta-feira, 24 de outubro de 2007, 8h34. Uma manhã chuvosa, como a minha alma. Minha querida e adorada mamãe. Todos os dias acordo agradecendo a Deus por ter você. Todos os dias abro os olhos às 4 horas e me preparo, a fim de estar bem desperta para escutar as mensagens em La Carrilera de las 5. Ouvir sua voz, sentir seu amor, sua ternura, sua confiança, seu compromisso de não me deixar só, é esta a minha esperança cotidiana. Todos os dias peço a Deus para abençoá-la, protegê-la e me permitir um dia poder encontrá-la, tratá-la como uma rainha, junto de mim, porque não suporto a idéia de uma nova separação.

A selva é bastante fechada por aqui, os raios de sol penetram com dificuldade. Mas é um deserto de afeição, de solidariedade, de ternura, e esta é a razão pela qual sua voz é o cordão umbilical que me ata à vida. Sonho beijá-la tão forte que eu permaneça incrustada em você. Sonho poder lhe dizer ?Mamãe, mamita, nunca mais você vai chorar por mim, nem nessa vida nem na outra?. Pedi a Deus para que ele um dia me permita lhe provar tudo que você significa para mim, poder protegê-la e não deixá-la sozinha um segundo. Em meus projetos de vida, se um dia eu recuperar a Liberdade, quero, mamita, que você pense em morar conosco, ou comigo. Chega de mensagens, chega de telefone, chega de distância, não quero que um único metro nos separe, porque sei que todos podem viver sem mim, menos você. Alimento-me todos os dias da esperança de estarmos juntas, e veremos como Deus nos mostrará o caminho, como nos organizaremos, mas a primeira coisa que quero lhe dizer é que, sem você, eu não teria agüentado até aqui.

Estou cansada de sofrer

Mamita, estou cansada, cansada de sofrer. Fui, ou tentei ser, forte. Esses seis anos ou quase de cativeiro demonstraram que não sou nem tão resistente, nem tão corajosa, inteligente e forte quanto pensava. Travei muitas batalhas, tentei a fuga diversas vezes, procurei manter a esperança como mantemos a cabeça fora d?água. Mas hoje, mamita, sinto-me vencida. Eu gostaria de pensar que um dia sairei daqui, mas percebo que o que aconteceu com os deputados, e que me deixou arrasada, pode acontecer comigo a qualquer momento. Acho que seria um alívio para todo mundo.

Sinto que meus filhos levam uma vida em suspenso na expectativa da minha libertação, e o seu sofrimento diário, o de todo mundo, faz com que a morte me pareça uma opção amena. Juntar-me a papai, por quem permaneço de luto: todos os dias, há quatro anos, choro a morte dele. Continuo a acreditar que vou acabar parando de chorar, que agora cicatrizou. Mas a dor volta e se lança sobre mim como um cão desleal, e torno a sentir meu coração se espatifar em mil pedaços. Estou cansada de sofrer, de carregar essa dor comigo todos os dias, de mentir para mim mesma achando que tudo vai terminar e constatar que cada dia equivale ao inferno do dia anterior. Penso nos meus filhos, nos meus três filhos, em Sébastien, em Mela e em Loli. Muita vida se esvaiu por entre nós, como se a terra firme houvesse sido tragada pela distância. Eles são os mesmos e não são mais os mesmos. Cada segundo da minha ausência, em que não posso estar aí dedicada a eles, para tratar suas feridas, aconselhá-los, dar-lhes força, paciência e humildade para enfrentar a vida, todas essas oportunidades perdidas de ser mãe envenenam meus momentos de infinita solidão, é como se me injetassem cianureto nas veias, gota a gota.

Mamita, este é um momento muito duro para mim. De repente eles exigem provas de vida, e eu lhe escrevo com a alma esparramada sobre este papel. Vou mal fisicamente. Parei de comer, perdi o apetite, meus cabelos caem copiosamente. Não tenho vontade de nada. Acho que a única coisa boa é isto: não ter vontade de nada. Pois aqui, nesta selva, a única resposta para tudo é ?Não?. O melhor então é não querer nada, para pelo menos ficar livre de desejos. Faz três anos que peço um dicionário enciclopédico para ler alguma coisa, aprender alguma coisa, manter viva a curiosidade intelectual. Continuo a ter esperanças de que, pelo menos por compaixão, eles me arranjem um, mas é melhor não pensar nisso. Aqui, tudo é um milagre. Ouvir sua voz de manhã é um milagre, pois meu rádio está muito velho e danificado. Continue a tentar transmitir, como vem fazendo, no início do programa, pois em seguida há muita interferência e, a partir das 5h20, só consigo presumir o que me diz. E quando houver uma notícia importante (como o casamento de Astrid), repita-a ao longo das mensagens.

A Bíblia, meu único luxo

Bom, como eu lhe dizia, a vida aqui não é a vida, é um desperdício lúgubre do tempo. Vivo ou sobrevivo numa rede esticada entre duas estacas, coberta com um mosquiteiro e uma lona que serve de teto e me permite pensar que tenho uma casa. Tenho um armariozinho onde ponho minhas coisas, isto é, a mochila com as roupas e a Bíblia, que é meu único luxo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. A qualquer momento eles podem dar ordens para arrumarmos nossas coisas, e todos são obrigados a dormir no fundo de um buraco qualquer, deitados em qualquer lugar, como animais. Esses momentos são particularmente difíceis para mim. Minhas mãos ficam úmidas, meu espírito se anuvia, acabo demorando o dobro do tempo para fazer as coisas. As caminhadas são um calvário, pois minha bagagem é muito pesada e mal consigo carregá-la. Às vezes os guerrilheiros pegam alguma coisa para me aliviar do peso, mas deixam ?os penicos? comigo, isto é, o que é necessário à nossa toalete e pesa mais.

Tudo é estressante, perco minhas coisas ou eles as confiscam, como o jeans que Mela me deu de Natal, que eu usava quando eles me raptaram. Nunca mais o vi. A única coisa que consegui salvar foi o casaco, e isso foi uma bênção, pois as noites são glaciais e eu não tinha mais nada para me proteger do frio. Antes, adorava tomar banho de rio. Como sou a única mulher do grupo, tenho que ir quase toda vestida: short, blusa, botas! Como nossas queridas avós de outros tempos. Antes eu gostava de nadar no rio, mas agora não tenho sequer fôlego para isso. Estou fraca, friorenta, pareço um gato diante da água. Eu, que gostava tanto da água, não me reconheço mais.

Queimar quatro cadernos

Costumava fazer duas horas de exercício durante o dia, às vezes três. Tinha inventado um aparelho para mim, uma espécie de banquinho feito com galhos, que apelidei de step, pensando nos exercícios da academia: a idéia era subir e descer, como se fosse um degrau. Ele tinha a vantagem de ocupar pouco espaço. Porque, às vezes, os acampamentos são tão pequenos que os prisioneiros ficam praticamente uns em cima dos outros. Porém, depois que eles separaram os grupos, não tenho vontade nem energia para fazer o que quer que seja. Faço um pouco de alongamento, pois o estresse me deixa com o pescoço duro, e isso me incomoda muito. Com os exercícios de alongamento, o split e o resto, consigo relaxar um pouco o pescoço. Eis toda a minha atividade, mamita. Ajo de maneira a ficar em silêncio, falo o menos possível, para evitar problemas. A presença de uma mulher em meio a homens que são prisioneiros há oito ou dez anos é um problema.

Escuto a RFI e a BBC, escrevo muito pouco porque os cadernos se acumulam e carregá-los é uma verdadeira tortura: tive que queimar pelo menos quatro. Além disso, durante as inspeções, eles nos confiscam o que mais prezamos. Tiraram de mim uma carta sua que chegara às minhas mãos depois da última prova de vida, em 2003. Os desenhos de Anastasia e Stanis, as fotos de Mela e Loli, o escapulário de papai, um programa de governo em 190 pontos que eu anotara ao longo dos anos, me arrancaram tudo. A cada dia, resta um pouco menos de mim mesma. Pinchao lhe contou os outros detalhes. Tudo é difícil. Esta é a realidade.

Durante anos não consegui pensar nas crianças, pois a dor com a morte de papai absorvia toda minha capacidade de resistência. Quando pensava nelas, tinha a impressão de sufocar, não conseguia mais respirar. Então eu dizia a mim mesma: ?Fab está lá, cuidando de tudo, não posso pensar, não posso pensar.? Com a morte de papai, quase enlouqueci. Preciso falar com Astrica para fazer o luto. Nunca soube como isso aconteceu, quem estava lá, se ele me deixou uma mensagem, uma carta, sua bênção.

Sol de primavera, anjo de luz

À minha Mela, meu sol de primavera, minha princesa da constelação de Cisne, a ela que amo tanto, quero dizer que sou a mãe mais orgulhosa do mundo. Tive muita sorte por Deus me dar esses filhos, e minha Mela é o grande prêmio da minha vida. Quando ela tinha cinco anos, já me desafiava com inteligência e afeição, e desde essa época sinto uma admiração sem limites por ela. Ela é muito sensata e inteligente. E, se eu tivesse que morrer hoje, partiria feliz da vida, agradecendo a Deus pelos meus filhos. Estou contente com seu mestrado em Nova York. É exatamente o que eu lhe teria aconselhado (…) Sempre lhe disse que você era a melhor, que é muito melhor que eu, que você é o que eu queria ter sido, mas melhor. Eis por quê, fortalecida pela experiência que acumulei durante a vida e com a perspectiva que, visto a distância, o mundo proporciona, peço, meu amor, que se prepare para atingir o topo.

A meu Lorenzo, meu Loli Pop, meu anjo de luz, meu rei das águas azuis, meu chief musician que canta e me encanta, ao soberano do meu coração, quero dizer que, desde que nasceu até o dia de hoje, ele foi a fonte das minhas alegrias. Tudo que vem dele é um bálsamo para o meu coração, tudo me reconforta, tudo me acalma, tudo me dá prazer e tranqüilidade. É meu filho querido, meu pedacinho de sol. Que vontade de vê-lo, beijá-lo, tomá-los nos braços e ouvi-lo! Este ano pude finalmente ouvir sua voz, uma ou duas vezes. Fiquei trêmula de emoção. É o meu Loli, a voz do meu filho, mas há uma voz de homem cobrindo essa voz de criança. Uma voz grossa de homem, rouca, como a de papai. Teria ele herdado também suas mãos, aquelas mãos grandes e bonitas de que sinto tanta falta? Deus me teria dado esse duplo presente??

Edésio Passos é advogado.
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