Causa um certo espanto, para não usar a palavra medo – que os petistas tanto temem -, a forma como novos condestáveis da República estão dando demonstração de encarar dois assuntos de extrema relevância na vida de todos os cidadãos: inflação e indexação.

Sobre o primeiro: à parte o que andaram dizendo por aí pessoas como o economista Paul Singer, do staff que elaborou o programa econômico do PT, segundo os quais Luiz Inácio Lula da Silva não foi eleito para controlar a inflação, temos a matemágica (um misto de matemática com mágica) anunciada pelo Comitê de Avaliação da Receita Orçamentária. Falta dinheiro para cobrir metas de despesa (tipo novo salário mínimo, programa Fome Zero)? Recalculem-se os índices da inflação! Em vez dos 8,8% previstos, que já não é pouco, por ano, escreva-se 12,81%. Com a inflação maior causada pelos solavancos de campanha neste fim de ano, os preços naturalmente sobem; sobem também os tributos a serem pagos pelos contribuintes. Eis o segredo e a mágica solução.

Sobre o segundo, pouco é necessário falar. Querem os meios sindicais, de onde provém o presidente eleito da República, que se proteja o poder de compra dos salários. A proposta é boa e defensável. Mas pela via da indexação? O “gatilho salarial” é um recurso já usado em tempos de inflação alta, destinado a corrigir automaticamente os salários toda vez que os preços subiam além de um determinado patamar. Em regime de gatilho, sobem os preços, sobem os salários. Porque sobem os salários, sobem os preços, taxas e serviços. E a ciranda, assim estabelecida, não tem mais conserto. Outra vez?

Os brasileiros aprenderam nesses anos todos de Plano Real (pelo menos enquanto o Plano Real foi bem sucedido) que não há proteção maior para os salários que uma situação em que se tem estabilidade de preços. Como é bom, mesmo na penúria, poder planejar o futuro. Bastaram as oscilações dos últimos tempos para trazer de volta a angústia ainda não totalmente apagada da cabeça das pessoas. O apoio às mudanças prometidas pelo candidato vitorioso nas últimas eleições não contemplou, naturalmente, compromisso algum com uma guinada de volta aos velhos tempos da inflação galopante. Vai daí que tanto a palavra inflação, quanto a expressão indexação, provocam calafrios.

O momento que estamos atravessando, com o debate do novo Orçamento Geral da União em confronto com planos e metas da nova equipe de governo já se preparando para assumir no começo do próximo ano, é rico de idéias. Deve ser aproveitado ao máximo. Pela primeira vez, nem situação, já que em final de mandato, fica aferrada à defesa da proposta oficial, nem oposição, já sendo quase governo, usa a mão torta que a tudo contraria apenas por contrariar. Uns querem mostrar que estavam cobertos de razão e outros, com a responsabilidade do futuro iminente, pretendem realizar o discurso sem desconhecer os limites da realidade.

Isso, entretanto, nada tem a ver com o desenterrar de duas idéias infelizes. E seria bom que o presidente eleito, tão solícito como comentarista de telejornal de uma rede de televisão, fosse outra vez diante das câmaras para dizer, com toda a seriedade que o momento requer, que inflação, assim como indexação, nunca mais. Para tranqüilidade dos brasileiros menos afortunados, que ele tanto apregoa defender.