Com a instauração do processo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara contra o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, este não mais poderá renunciar a fim de salvaguardar os direitos políticos caso o resultado final das apurações aponte para a cassação do mandato. Nessa hipótese, de acordo com o Regimento Interno da Casa a questão será transferida para o plenário, onde em sessão aberta todos os deputados votarão a favor ou contra a extinção do mandato do acusado de ter agido de maneira escusa, para locupletar-se com dinheiro desviado do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A chegada de Paulinho a seu inferno astral, depois de algumas tentativas frustradas de ingressar na vida pública a cavaleiro da função de presidente da Força Sindical, uma das mais importantes centrais de trabalhadores do País, deu-se depois de uma convincente eleição para a Câmara dos Deputados, quando se colocou entre os mais votados dentre os representantes do Estado de São Paulo. O fato em si não causou a menor surpresa tendo em vista a notável exposição do dirigente sindical em campanhas locais e nacionais em defesa da rentável tese dos direitos dos trabalhadores.

O dado sintomático é que Paulinho e vários outros parceiros da Força Sindical se inscreveram justamente no PDT, última bandeira que ainda resta da trajetória histórica de Leonel Brizola, com o objetivo de ?fazer política? conforme o viciado jargão que vicejou nos meios dirigentes dos sindicatos de trabalhadores, sobretudo no que passou a ser conhecido como ?sindicalismo de resultados?.

Para agir de forma tão estapafúrdia e desrespeitosa em relação ao legado do último grande líder do trabalhismo brasileiro, como o fez Paulinho, teria sido mais consentâneo com o manual de instruções escolhido para orientar a atuação política do deputado paulista, optar por uma legenda de menor visibilidade e tradição. Assim, no curto período que tudo indica lhe caracterizará a passagem pela Câmara dos Deputados, Paulinho engrossará o rastro indelével e recorrente deixado pelos oportunistas que vêem na vida política o caminho mais fácil para o enriquecimento.

A versatilidade adquirida pelo deputado, que também é presidente da Força Sindical e do diretório regional paulista do PDT e, de quebra, pré-candidato do bloquinho formado pelo PDT, PCdoB e PSB à Prefeitura Municipal de São Paulo, nas negociações por cargos importantes na máquina administrativa, foi usado à larga na nomeação de figuras insignes da direção da central de trabalhadores na estrutura do Ministério do Trabalho e suas representações regionais.

O ministro Carlos Lupi, que só a custo de notável estridência à sua teimosia de aboletar-se nas cadeiras de ministro e presidente do partido que arrastou para a base governista e, do mal-estar causado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, finalmente concordou em tomar a decisão tardia de se afastar da presidência da Executiva Nacional do PDT e ficar apenas com o Ministério, abriu as portas para a ?companheirada? indicada por Paulinho.

Os comentários mais ouvidos nos corredores do próprio governo dão conta que Lupi estaria preparando uma operação-relâmpago para remover do Ministério do Trabalho os resquícios incômodos de seu relacionamento político com o acusado por quebra do decoro parlamentar.

Ao receber a informação de que seria processado pelo Conselho de Ética, Paulinho retrucou que estava à espera de oportunidade semelhante, pois agora poderá apresentar aos colegas a defesa irrefutável de sua conduta ilibada, segundo suas convicções pessoais. Todo esse discurso faria sentido, se a opinião pública não tivesse testemunhado algaravias idênticas em ocorrências ainda vivas no Congresso, como a enfadonha memória do episódio protagonizado pelo senador alagoano Renan Calheiros.