Atualmente as sociedades capitalistas começam a buscar alternativas em outras sociedades. Indivíduos despertam para a necessidade de conhecer outras sociedades, outros valores e outros modos de viver que possam lhes indicar menos agitação, menos corrupção e o cultivo de outro tipo de projeto futuro. Entre outras regiões brasileiras, a Amazônia tem se revelado o cenário não somente do aprendizado do saber milenar da natureza, mas também de sua sustentabilidade.

Na obra Enciclopédia da floresta (2002), organizada por Manuela C. da Cunha e Mauro B. de Almeida, foram relacionados saberes tradicionais cujos atores, um grupo de seringueiros e três grupos de índios, kaxinawá, katukina e ashaninka, procuram manter a produtividade da natureza ao longo do tempo, diante do desafio do uso na bacia do Alto Juruá na ponta sudoeste da Amazônia brasileira.

Na diversidade da região na qual, como afirma Brown e Freitas “deve haver mais de cem mil espécies diferentes”, caminham juntos o saber, as culturas tradicionais de uso sustentável de recursos e a preservação da biodiversidade. Roig e Martini (p. 49) afirmam que a distribuição de rios e afluentes se assemelha a um emaranhado de raízes, e “o lombo das terras é uma escolha comum para colocar os roçados”. Os solos “possuem boa disponibilidade de nutrientes”, e a estratégia de uso como reserva extrativista é uma das formas de manutenção das características originais do solo, conforme Amaral e Melo (p. 51).

A flora “altamente diversa, surpreendente e rica em recursos úteis”, tem na serra do Moa, no Alto Juruá, sua região mais interessante, como dizem Daly e Silveira (p. 58-59) os quais consideram que é necessário gerar informações básicas sobre a flora e a ecologia das espécies úteis para conservar a biodiversidade.

Os seringueiros que, de acordo com Almeida, Wolff, Costa e Franco (p. 105), “haviam participado por mais de um século do comércio mundial de matérias-primas”, foram credenciados e treinados, a partir de 1994, para continuar as tradições com uso sustentável. Eles e os índios fazem parte da riqueza da diversidade da região.

Os kaxinawá, “que constituem a população indígena mais numerosa do Acre”, são desafiados, no parecer de Aquino e Iglesias (p. 147 e 160), a “implementar práticas produtivas e de manejo que resultem no uso sustentado dos recursos naturais de suas terras e na diversificação das fontes de renda”.

Os katukina “foram vítimas da expansão da borracha, sendo alvo de correrias. Para escapar dos ataques, dispersaram-se na região (…) vivendo da caça, da coleta e de assaltos aos roçados que encontravam pelo caminho”, como relata Coffaci de Lima (p. 169), e por isso são tidos como povo essencialmente nômade.

Há um saber para cada escolha. Deve-se começar a casa pela cozinha para se ter fartura. Kaxinawá e katukina cultivam pelo menos 14 variedades de bananas, mamão, arroz, cana-de-açúcar, algodão, tabaco, amendoim, melancia, jerimum, feijão, etc., e o sistema agrícola é diversificado (Franco, Almeida, Conceição, Coffaci de Lima, Aquino, Iglesias e Mendes).

A extração requer uma forma especial de ação sobre a natureza. “Cada árvore de seringa protege em seu entorno cerca de um hectare de floresta com aproximadamente quinhentos indivíduos de duzentas a trezentas espécies diferentes, além de uma rica população animal” (Emperaire; Almeida).

Estudos recentes indicam que a natureza amazônica é muito pouco natural; é considerada o produto cultural de uma manipulação muito antiga da fauna e da flora. Descola (1997) diz que as populações indígenas souberam aplicar estratégias de uso dos recursos que, “mesmo transformando de maneira durável seu meio ambiente natural, não colocavam em risco as condições de reprodução deste meio ambiente”.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

E-mail: zeliabonamigo@uol.com.br