Não é só a governadora Benedita da Silva, do Rio de Janeiro, que ficou indignada com a conclusão do inquérito policial que tinha o objetivo principal de apurar o seqüestro, tortura, morte, esquartejamento, queima e sumiço do corpo do jornalista Tim Lopes, há pouco mais de sessenta dias, numa das favelas cariocas. Nenhum cidadão de bem pode acreditar que algum delegado ou policial tenha chegado à conclusão a que chegaram os autores do inquérito sem a suspeita de que padeçam de algum sério desvio de caráter ou tenham sido movidos pela má-fé ou, mesmo, por algum indizível objetivo de provocar.

Não vamos aqui entrar no campo da processualística e da técnica. Mas vale considerar algumas coisas. Por exemplo: em outras palavras, o inquérito – ao que foi divulgado para toda a nação estarrecida – chegou à conclusão que o culpado de sua própria desgraça foi o destemido e premiado jornalista; que ele procurou o desfecho de que foi vítima; que ele foi imprudente; que ele foi motivado pela busca da notoriedade e coisas do gênero. Que ele, enfim, mereceu o fim que teve, já que poderia ter imaginado que ia dar no que deu. Nada mais de substancioso disse ou deslindou o inquérito. Nem sobre os escabrosos detalhes de barbarismo com que o crime – sabe-se – foi praticado, nem sobre as conexões do crime organizado com a sociedade aparentemente estruturada, mesmo que de favelas, em torno de associações de moradores e coisas do gênero.

É desnecessário repetir que Tim Lopes fazia, quando desapareceu para sempre, investigação jornalística sobre um tipo de baile promovido por associações de moradores sob ordens dos comandantes do crime organizado, que da festa se valiam para o tráfico e consumo de drogas e toda sorte de práticas sexuais, inclusive com menores de idade. Se cometeu a falha de não pedir proteção ou acompanhamento à distância, ou se a empresa a que servia não lhe ofereceu essas condições, isso nada tem a ver com o que adveio depois de sua “prisão”. Nem mesmo tem a ver com o fato em si. No máximo mereceria alguma observação de rodapé, algum conselho que servisse a casos futuros em situações análogas.

À polícia incumbia, como era de se esperar, lançar um pouco mais de luz sobre o trágico acontecimento, inclusive porque falhou ela própria ao permitir a livre ação de facínoras em ambiente público. Dizer que Tim Lopes teve o fim que buscou é o mesmo que louvar os assassinos. Pior, é explicar por que a polícia, até agora, não conseguiu prender os autores já sabidos. É, também, justificar a omissão policial já tantas vezes denunciada – inclusive por Tim Lopes – que, parece, segue à risca a conclusão do inquérito: onde bandido manda, ninguém se atreva a meter os pés, nem jornalista, nem polícia, nem ninguém a não ser vítimas escolhidas pelos facínoras que, assim livres em seu domínio do mal, executam o que bem entendem.

Os assassinos do jornalista não poderiam chegar a conclusão melhor que essa a que chegaram os policiais encarregados do inquérito. De fato, parece que estamos vivendo sob o império de um poder paralelo que tem aliados nos agentes do poder institucional. O refazimento do inquérito, já ordenado, não desfaz essa incômoda sensação.