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Guerra, sombra e água fresca

  • Por Jornalista Externo

Ele acorda cedo. Britanicamente, às 6h. Na portaria recebe cinco exemplares dos principais periódicos do mundo: The New York Times, Le Monde, Corriere Della Sera, El Pais e, claro, o seu Zero Hora (desconheço os motivos de o chamarem “a Zero“).

Aproveita a caminhada matutina para passar na banca de revistas e adquire Newsweek e Paris Match. Após uma ducha rápida, assiste ao Good Morning United Kingdom, risca algumas palavras num bloco de anotações e roteiriza mentalmente a transmissão do dia para um minuto e vinte segundos. “Ah, como é gostoso ser correspondente de guerra”, grita ironicamente, atirando-se sobre as almofadas da sala de estar.

Deve ser fantástico cobrir conflitos da Ásia, África e Leste europeu plantado em Londres, Paris, Roma, Berlim, Madri, Amsterdã ou Genebra. Afinal, a quantidade de informações circulando nestas e outras metrópoles supera até mesmo as zonas de batalha, locais perigosos e nada recomendáveis. Os conglomerados jornalísticos não estão a fim de investir em empreitadas incertas e de risco. Além da segurança, residir nestes países pode se tornar a grande oportunidade de continuar os estudos visando a titulação como mestre, doutor ou livre-docente. Bom para o “repórter de guerra”, excelente para a redação responsável pelo jornalista.

Também é possível imaginar que no mundo globalizado pelas televisões fechadas e complexos portais na internet, pode-se receber informações em casa. Nem a guerra é levada mais a sério. Então, qual a finalidade das guerras? Por que não colocar loucos e destemperados, como Saddam Hussein e George Walker Bush, numa acirrada disputa eletrônica?

O degenerado ditador ugandense Idi Amin Dadá tinha sempre uma saída mais “amena” para solucionar querelas vizinhas. Armava um ringue e convidava o presidente do outro país para trocar uns socos. Dois problemas de graves conseqüências ficavam resolvidos: soldados e civis não morriam e os jornalistas assistiam à luta sem correr perigo de morte. É claro que Bush não toparia esse desafio, a não ser que Saddam aceitasse passar num botequim antes, detalhe que o islã condena.

Tal ironia só é comparada aos heróis do coronel Hogan do fajuto campo de concentração nazista, retratado na hilária série de TV Guerra, Sombra e Água Fresca, exibida em 129 capítulos entre 1965 e 1971. Militares ingleses, norte-americanos, franceses, irlandeses, holandeses e belgas, prisioneiros de guerra dos alemães, saíam e voltavam à prisão quantas vezes fosse possível, debochando da onipresente e poderosa força ariana.

Analogamente, muitos repórteres estacionados em sofisticadas cidades européias parecem zombar dos leitores, ouvintes e telespectadores. Raríssimos são os colegas de profissão, ou alunos, desejosos de contemplar ao vivo uma guerra como repórteres. E com a avançada tecnologia de informação, confrontada diante do mortal circo de sofisticados inventos bélicos, torna-se mais difícil um jornalista optar por essa especialização.

Jornalista, professor do Unasp e mestrando em Educação.
E-mail: dargan_holdorf@hotmail.com

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