Nos últimos meses do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil sofreu um sério ataque do mercado. O dólar subiu assustadoramente. O risco-Brasil, medido por diversas instituições, foi às nuvens. O nosso conceito de risco tornou-se dos piores. Os fluxos de investimentos esgotaram-se. E os investidores que puderam, retiraram o dinheiro que aqui tinham aplicado. Recursos de empréstimos e até de risco, ou sejam, produtivos. Passamos a ser entre os destinos procurados para aplicações pelo mercado financeiro internacional, e até o nacional, uma incógnita. Desconfiavam que o Brasil era frágil e apresentava alto risco, embora nossas autoridades afirmassem e reafirmassem que os fundamentos da nossa economia continuavam sadios.

FHC, mesmo torcendo pela candidatura de José Serra, fez inúmeras declarações, aqui e fora do Brasil, em defesa da nossa economia e até em defesa do próprio Lula.

O que estava acontecendo é que o nosso atual presidente, conhecido como líder de esquerda e que chegou a encabeçar movimento pela moratória, era olhado com desconfiança. Os investidores e seus conselheiros imaginavam que, eleito, ele poderia dar o calote nos nossos credores, desapropriar empresas e instalar uma sociedade socialista próxima do marxismo. Assim, não foi FHC nem o seu governo o culpado por aquele recuo do mercado. Foram as desconfianças e equívocos em relação a Lula. Assumindo, o atual presidente seguiu a mesma política fiscal de FHC e até a tornou mais rígida. Recuperou a confiança do mercado e até começou a ganhar elogios no exterior. E, aqui dentro, críticas, principalmente de correligionários seus que acreditavam em sua ortodoxia esquerdista.

Pois estamos novamente sob alta tensão. O mercado volta a desconfiar do Brasil e de nada adiantam as bravatas do passado, quando Lula e seus correligionários declaravam guerra ao mercado, dizendo que este estava querendo mandar no Brasil. O mercado é impessoal, impalpável, quase abstrato, apesar dos estragos que causa. É composto de milhares, senão milhões de investidores, pequenos, médios e grandes aplicadores que investem através de várias vias e em diferentes títulos. Em geral, utilizam-se de empresas gestoras de fundos, de bancos de investimentos, corretoras ou mesmo consultores autônomos. Estes não são donos do dinheiro, mas seus guias e conselheiros de sua clientela.

Hoje, o Brasil está sendo olhado como um país que não resolveu o problema da fome, como prometido; que tem muita corrupção em todos os níveis de governo; que bate recordes de desemprego e ainda sofre a calúnia, de um jornal mundialmente famoso, de que seu presidente é dado a beber mais do que o admissível. De outro lado, há uma crise mundial na área do petróleo, lutas armadas, atentados e os Estados Unidos, a maior economia do mundo, ameaçam subir suas taxas de juros, ou seja, oferecer aos investidores internacionais maiores ganhos num ambiente economicamente mais seguro.

Não somos os únicos a esperar investimentos. Disputamos com países emergentes e até com países desenvolvidos.

Essa tempestade já nos prejudica seriamente. A alta do dólar aumentou a dívida externa brasileira em mais de R$ 10 bilhões, felizmente num quadro que pode ser reversível. Numa situação dessas, de nada adianta amaldiçoar o mercado. É preciso que resolvamos a contento nossos problemas, acabemos com nossas próprias fraquezas e mantenhamos constante a confiança do mercado. Senão, ele parte para outras praças.