O presidente Lula, numa divisão primária entre homens do bem e homens do mal, está entre os primeiros. Atuando certo ou errado no governo, e há amplas indicações de que também erra ou deixa de atuar, cuidando mais de motivação que de ação, Lula é um cidadão de bem. Esse seu perfil de homem bom e bem intencionado é próprio dos que abraçam as causas sociais, embora não possamos nos esquecer de que líderes da extrema-esquerda, tanto quanto da extrema-direita, já cometeram barbaridades e mataram milhares de pessoas ao longo da história. Um exemplo, certamente o mais eloqüente, é o do líder comunista Stalin e muitos de sua equipe que, em nome da igualdade entre os homens, impuseram à União Soviética e a vários outros países regime ditatorial sangüinário. Para a realização da eqüidade social, valia tudo, inclusive assassinatos em massa.
Lula é manso, é doce, mas não parece imparcial, embora de sua parcialidade tudo indique que não tem consciência. Lembra o guarda-chuva, figura que por muito tempo representou em propagandas o manto protetor de um grande banco sobre sua clientela. Para Lula, há sempre uma desculpa para os erros ou meros equívocos dos que são do seu partido ou do seu governo, com raras exceções.
O ministro José Dirceu, em governo mais enérgico, teria perdido senão o cargo, pelo menos parte de sua enorme força, com o episódio de seu amigo, ex-colega de apartamento e auxiliar Waldomiro Diniz, que se provou estar ligado a chantagens com chefes de loterias e, muito possivelmente, também de jogos ilegais.
No Brasil de hoje, as investigações de denúncias de corrupção ou impropriedades administrativas só são investigadas com rigor e rapidez se os indigitados são do outro lado. Se da turma de casa, há uma tendência de que se abra o guarda-chuva protetor e as coisas se arrastam nos gabinetes, dormem nas gavetas, quando não são considerados pecadilhos dignos de indulgências. Indulgências que são concedidas com muita freqüência.
Veja-se a leniência na apuração das graves irregularidades no programa dos vales para beneficiar famílias pobres, o Bolsa Família, que representa o programa “Fome Zero”. Houve incompetência e mesmo corrupção e, até agora, mantêm-se na cúpula do governo as autoridades responsáveis. No caso do Ministério da Defesa e da reação das Forças Armadas quando se remexeu no caso Herzog, pôs panos quentes, deu graças a Deus que o ministro da Defesa foi compreensivo e pediu demissão e que o do Exército não deu seguimento a uma perigosa discussão que já não mais é hora de reviver.
A última é o caso do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que, atacado com freqüência pelos petistas ortodoxos, foi mantido no cargo e recebeu a proteção do guarda-chuva, agraciado com uma medida provisória que lhe deu o título de ministro, com status e foro privilegiado. Na estrutura do governo não cabe um presidente do BC como ministro. Nem cabe, no setor econômico do governo, um ministro da Fazenda e um ministro do Banco Central, sendo que este é subordinado àquele. Mas como, se os dois são ministros?
O resultado foi um incômodo e, de certa forma desmoralizante parecer do procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, enviado ao Supremo, sustentando que o guarda-chuva está furado. Ministro-presidente do BC é inconstitucional.