O presidente Fernando Henrique Cardoso foi informado sobre o reajuste dos combustíveis no início da semana. O próprio presidente da Petrobras, Francisco Gros, foi quem lhe deu a notícia diretamente, em uma precedência que se tornou comum desde fevereiro, quando uma polêmica envolveu a Presidência da República e a estatal sobre os aumentos de derivados de petróleo.

De acordo com colaboradores do Palácio do Planalto, Gros disse a Fernando Henrique que o reajuste era necessário e que a estatal não teria mais como segurar os preços diante do aumento do dólar e do preço internacional do petróleo.

O aumento nos preços já era esperado pelo governo e, principalmente, pela equipe econômica. A questão era saber quando a Petrobras iria anunciá-lo, de acordo com um interlocutor do ministro de Minas e Energia, Francisco Gomide. A data do anúncio, garantiu essa fonte, não estaria relacionada ao fim do período eleitoral, mas à queda da cotação do dólar, que se seguiu ao término das eleições. A redução do preço do óleo também teria influenciado. ?Com a cotação da moeda americana elevada, a Petrobras achou prudente segurar os preços?, disse a fonte.

Formalmente, nenhuma autoridade quis se manifestar sobre o reajuste. Gomide se encontrava em Curitiba e, de acordo com sua assessoria não foi localizado. A assessoria do Palácio do Planalto disse que não teria o que comentar.

O secretário-geral da Presidência, Euclides Scalco, limitou-e a responder as críticas do secretário-geral do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Soares Dulci, que afirmou que o governo deixou passar as eleições para tomar a decisão de aumentar os preços. ?O governo não tem atitudes eleitoreiras, ele faz o necessário quando a economia exige?, disse Scalco. ?Se não fosse assim, o governo não teria aumentado a taxa básica de juros em plena reta final da campanha. Ele faz o que for preciso, no momento necessário, e isso não é o governo quem diz, são os fatos que demonstram?.

A cautela do governo em discutir o impacto político dos reajustes dos preços deriva da própria política para o setor de petróleo adotada nessa administração. Desde 1º de janeiro não existe mais o controle dos preços dos combustíveis pelo governo. O preço é livre e varia de acordo com a cotação do óleo no mercado internacional e com o valor do dólar em relação ao real. Assim, a decisão de reajustes não deveria passar pelo governo. Os reajustes passaram a ter uma conotação técnica, de acordo com os cálculos da Petrobras.

A polêmica que envolveu a Presidência e a estatal começou depois que, com a liberação do mercado no início deste ano, a Petrobras decidiu reduzir em 25% o preço dos combustíveis para as refinarias. O presidente da República fez um anúncio público de que haveria uma queda do mesmo montante nos preços ao consumidor, o que não ocorreu. Os Estados não reduziram o imposto sobre os combustíveis e, logo depois, houve o aumento do preço no mercado internacional e da cotação do dólar, exigindo um novo reajuste.

Durante todo o mês de janeiro os ministérios da Fazenda, Minas e Energia e da Justiça procuraram elementos que forçassem a queda dos preços até os níveis anunciados e chegaram a comunicar que em fevereiro haveria uma redução ainda maior dos preços. O anúncio da Petrobras na ocasião frustrou a expectativa do governo, que passou a exigir ser informado previamente de todos os reajustes.