A divulgação dos dados do IPCA, em meio à greve de funcionários do IBGE, levantou desconfiança nos analistas de mercado sobre possíveis problemas na coleta de preços.

Como o resultado do IPCA-15 – prévia do IPCA do mês – foi acima do esperado em agosto, alguns analistas questionaram a correção da coleta. O instituto garante que não há nenhum problema nos dados.

"Eu acho estranho que todos os demais indicadores de preços no período tenham apresentado deflação e o IPCA venha positivo", afirma o economista-chefe da SulAmérica de Investimentos, Newton Camargo Rosa. "Montamos todo um esquema para garantir que a pesquisa fosse realizada nos padrões", disse a diretora de Pesquisas do IBGE, Wasmalia Bivar. "No caso do IPCA, 100% da mostra foi coletada."

De acordo com a economista-chefe do BES Investimento, Sandra Utsumi, do total de preços que compõem a tomada do IPCA, um terço deixou de ser coletado em agosto. "Eu penso que o próprio Banco Central deveria ficar atento a esta diferença", afirma Sandra.

Já o economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-RJ e membro do conselho consultivo do IPCA, disse que o IPCA-15 de agosto, – divulgado no último dia 25 -, muito diferente das previsões do mercado, "realmente assustou", mas a divulgação do IPCA trouxe tranquilidade. "Não estou preocupado com a coleta", afirmou. Segundo ele, "na verdade, mesmo que todos os institutos coletem os preços do mesmo produto no mesmo lugar, haverá diferença de resultados".

Wasmalia explicou que, quando há alguma mudança na coleta ou cálculo do índice, seja por qualquer motivo, o IBGE tem obrigação constitucional de informar o problema ao público. "Todas as vezes que não conseguimos adotar os procedimentos estritamente como previstos informamos ao público porque temos compromisso com o calendário de divulgação e maior ainda com os resultados e a sociedade", disse.

Segundo ela, há tratamentos estatísticos previstos internacionalmente no caso de problemas nos procedimentos normais de coleta ou de cálculo, mas eles são informados sempre que utilizados, o que não ocorreu nas pesquisas do IBGE até o momento.

Por outro lado, o diretor do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE, Renato Quirino, disse que a greve atingiu 70% da categoria e que, por isso, "não haveria como ter uma coleta dentro da normalidade". Segundo ele, "o material que vocês (os jornalistas) estão trabalhando não tem credibilidade porque a coleta não está sendo realizada como sempre". No entanto, ele não soube explicar que mudanças houve na coleta ou qual porcentual dos pesquisadores em campo estão em greve.