Sempre houve o entendimento de que o governo não tem de advogar, no exterior, as causas dos setores privados de nossa economia. Que os problemas de empresas privadas são de sua única e estrita responsabilidade, parecendo suspeita qualquer intervenção do governo em seu favor. Essa cultura resulta da má informação sobre as relações, muitas vezes simbióticas, entre os interesses públicos e os das empresas privadas e em especial do fato de que desenvolvemos, por décadas, uma economia com forte presença estatal. Presença que não se deu só na administração, formação e até tabelamento de preços; estabelecimento de regras, de cima para baixo, como até uma presença direta do Estado, produzindo como substituto da iniciativa privada. A indústria brasileira do aço, por exemplo, era estatal. Estatal também o setor petrolífero.

Assim, nesses setores, e só neles, parecia justificar-se o governo batalhando em favor das empresas. Nos demais, deveria lavar as mãos, pois se tratavam de negócios privados.

As exportações deveriam merecer do governo pouco mais que estatísticas. Os recursos para empresas privadas em moeda estrangeira, para capital fixo, de giro ou rolagem de dívidas, recebiam intervenção governamental admitida pela opinião pública, quando significavam reservas de mercado, impedimento de desnacionalizações, etc. Enquanto isso, outros países, os desenvolvidos, em favor de suas economias contam com a permanente defesa dos interesses privados pelo poder público. Um exemplo são os Estados Unidos, que chegam a um protecionismo injusto para o resto do mundo. Os chamados “interesses norte-americanos” são defendidos com unhas e dentes pelo governo de Washington, mesmo que sejam apenas do setor privado. Isso se justifica, pois as sociedades modernas – a norte-americana e inclusive a nossa – não podem separar interesses públicos e privados em matéria de economia, quando menos porque os governos vivem de impostos, que são recursos que não criam. A iniciativa privada e os cidadãos é que os produzem e sustentam os governos. No mais, a manutenção de um bom nível de empregos, razoável nível de vida e competitividade dos setores produtivos da economia são preocupações e obrigações dos governos. A partir da desestatização, se não se preocuparem e firmarem obrigações com a iniciativa privada, muito pouco terão a governar.

Explica-se porque o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, faz excursões pelo exterior convencendo governos, entidades financeiras multilaterais e mesmo bancos privados de que nossa economia se sustenta e merece confiança. Agora é o ministro da Fazenda, Pedro Malan, que vai à Europa conversar com bancos estrangeiros, investidores internacionais e dirigentes de bancos centrais, dizendo que “não há nada de errado na economia brasileira”. Defende o crédito do governo brasileiro, mas também a reabertura dos créditos para as empresas particulares brasileiras, principalmente as exportadoras. Mostrará que nos últimos doze meses a nossa balança comercial já acumula um saldo de US$ 7,4 bilhões e que existem outros indicadores demonstrando que já é hora de devolver a confiança no Brasil, mesmo com as dúvidas persistentes sobre o que fará o novo governo.