Mesmo com o excesso de arrecadação de janeiro a junho deste ano, superior à do mesmo período em 2004, a Previdência vai fechar o mês de outubro com um déficit acumulado de R$ 24,731 bilhões, 13,7% além dos R$ 21,757 bilhões registrados entre janeiro e setembro do ano passado.

No relatório divulgado pelo secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, a estimativa de déficit para o ano é de R$ 38,6 bilhões, ou seja, a diferença entre os R$ 108,3 bilhões da arrecadação e os R$ 146,9 bilhões da despesa.

A desmoralizada desculpa para a perenidade do déficit é que até agora o governo não conseguiu levar a termo o recadastramento, embora a medida tenha sido proposta e abandonada inúmeras vezes em passado recente.

De conformidade com a hermenêutica da burocracia, somente com o recadastramento o governo terá condições de suspender o pagamento de benefícios irregulares, além de disciplinar a concessão do auxílio-doença, vazões que alimentam a quebradeira.

Uma situação que, no mínimo, faculta creditar à administração da Previdência a adoção de métodos inspirados no hermetismo de Franz Kafka, ele próprio, soterrado pelos indevassáveis mistérios atuariais da companhia de seguros em que trabalhava.

Zerado o déficit da Previdência, o Brasil certamente teria uma seguridade social digna da inveja do Primeiro Mundo. Mas, qualidade de vida desse jaez só em reinos do faz-de-conta. Nossa realidade é infinitamente mais cruel.