Um estudo da corporação Latino-Barômetro, que nos vem de Santiago do Chile, faz a triste revelação de que os povos dos países latino-americanos estão descontentes com a democracia, que, aliás, a maioria deles conquistou poucos anos atrás; não se passou muito tempo das últimas e repetidas ditaduras que comandaram a maioria dos países abaixo do Rio Grande. Os consultados, em uma proporção de 66%, consideram que a democracia é indispensável para o desenvolvimento de seus países e que não pode haver democracia sem partidos políticos ou congressos. Um consolo, como consolo também é a constatação de que a maioria dos “democratas insatisfeitos”, em número de 58%, é de pessoas que se ligam a tendências políticas de direita.

Entre os países latino-americanos onde a democracia recebe mais aplausos estão Costa Rica e Uruguai, com 77% cada um. No que se refere à Costa Rica, é fácil a explicação. É um dos países do mundo onde o regime do povo, para o povo e pelo povo melhor funciona. Para se ter uma idéia dos avanços conquistados por aquele pequeno país da América Central, ele nem forças armadas tem. Quanto ao Uruguai, a análise é um pouco mais difícil. Pequeno e vítima de ditadura recente, foi por muito tempo considerado a Suíça da América Latina. Analistas entendem que foi vítima de um excesso de onerosas leis sociais, mas seu povo, passada a dura ditadura militar, tem na memória os bons tempos da democracia velha, com seus benefícios e a ampla liberdade vivida. E agora reconquistada, porém sem os benefícios sociais gozados no passado.

Mesmo os venezuelanos, que hoje estão numa encruzilhada com Hugo Chávez, numa proporção de 73% manifestam-se contentes com a democracia.

Problema é o Brasil. Aqui, apenas 37% das pessoas consultadas se disseram satisfeitas com a democracia, embora a escolham como regime ideal, apesar dos pesares e da falta de conhecimentos sobre o que é de fato a democracia.

É um número insignificante, perigoso, que mostra a fragilidade da nossa recém-reconquistada democracia. Falta muito para que ela se consolide, não obstante inexistam sinais visíveis de golpes. O que parece evidente é que os brasileiros querem o regime democrático, mas estão desiludidos com os poucos sucessos através dele alcançados. Diríamos melhor, descontentes com os insucessos através dele colhidos.

Somos um país de enormes carências, com uma imensa população abaixo da linha de pobreza e péssima distribuição de riquezas. Temos um dos menores salários mínimos do mundo e os progressos sociais, até tentados por governos como o de Fernando Henrique Cardoso, se fazem demasiado lentos, plantando desesperanças. A eleição de Lula foi considerada uma virada, mas a cada dia que passa aumentam as desesperanças, com mais desemprego, e se aprofundam as diferenças sociais. A população brasileira vê uma democracia que tem os três poderes, mas não há a necessária harmonia entre eles. Fala-se em caixa-preta no Judiciário e também no Executivo e no Legislativo. Este, não responde, como representante direto do povo, aos seus anseios. Aliás, quando discute assuntos relevantes, como as reformas, sequer o ouve e trabalha como caudatário do Executivo.

A transparência, essencial no regime democrático para que suas autoridades ajam de forma visível, inexiste. O governo, nos três poderes, é opaco.

Há improbidade e a impunidade desacredita qualquer democracia. A democracia é o regime que queremos, mas a nossa não é a que merecemos.