É um movimento sutil, mas celebrar a globalização e a riqueza voltou a ser politicamente aceitável no Fórum Econômico Mundial de Davos. No encontro deste ano, encerrado hoje (29), a preocupação social não desapareceu, mas saiu do primeiro plano. O grande tema de 2006, na verdade foram duas histórias espetaculares de sucesso da globalização: o crescimento em alta velocidade da China e Índia, os dois países mais populosos do mundo

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A forte expansão da economia global nos últimos, com projeções de continuar em 2006, está recheando os bolsos dos participantes empresariais de Davos, e também contribuiu para dar um tom mais celebrativo, e menos compungido, ao Fórum de 2006

Durante as sessões e debates, houve um pouco menos da ênfase dos encontros anteriores em discutir os problemas dos pobres, salientar a ação social das empresas, brigar por direitos humanos e protestar contra os aspectos mais egoístas dos negócios e das finanças no mundo globalizado. Estes temas ganharam grande destaque nos anos recentes, fase na qual o número de Organizações Não-Governamentais (ONGs) convidadas para o Fórum Mundial teve forte aumento. O surgimento do Fórum Social Mundial, com a explícita intenção de ser um contraponto crítico a Davos, só reforçou aquela tendência. O Fórum Econômico chegou a decretar o fim da gravata como traje preferencial das reuniões para dar um caráter mais informal e simpático ao evento

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou bem a "onda social" de Davos e, em 2003, recém-eleito, foi de fato uma das estrelas do encontro, embora, ao contrário do que alguns dizem, não foi de forma alguma o causador da mudança na agenda do Fórum Econômico. O encontro de 2005 talvez tenha sido o pico daquela tendência, com a atriz Sharon Stone conclamando participantes do Fórum a doar dinheiro para a África em plena sessão plenária, e o pop star Bono Vox, do U2, provocando muito alarido com sua movimentação pró-ajuda. Lula foi de novo ao Fórum em 2005, mas desta vez de forma mais apagada, e chegou a ficar perdido e confuso durante uma discussão sobre pobreza

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Em 2006, os ventos começaram a mudar, discretamente. Certamente não é uma volta à euforia globalizante dos anos 90, e muito do caráter social assumido nos últimos anos veio para ficar. Bono retornou ao Fórum em 2006, o debate sobre direitos humanos, com a participação da atriz Angelina Jolie, foi repleto de críticas ao presidente George Bush, e Bill Gates, da Microsoft, anunciou uma doação adicional de US$ 600 milhões para o combate à malária. O próprio tema do Fórum de 2006, a criatividade, está na linha de ter um maior apelo ao público comum. A diferença em relação aos anos anteriores, porém, é que aqueles temas e preocupações não dominaram a pauta de Davos

Para Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, "houve um consenso este ano de que, em 2005, o encontro foi seqüestrado pela questão da ajuda (aos países mais pobres do mundo), que tem muito apelo emocional, mas com propostas de políticas pouco fundamentadas em termos intelectuais". Na verdade, parece ter havido reclamações dos participantes ao longo de 2005 sobre a excessiva ênfase na agenda social no encontro daquele ano.acha que, em 2006, as discussões foram mais sólidas, e menos dominadas pelo sentimentalismo. "Bono é um grande homem, mas isto não faz com que as suas idéias estejam corretas", ele diz, criticando a idéia do pop star e do economista Jeffrey Sachs de que o perdão de dívidas e ajuda sem condicionalidades pode resgatar a África da pobreza

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Grau atenuado de preocupação com a correção política em Davos pôde ser sentido, cor exemplo, no comentário do economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neill, em um encontro paralelo ao Fórum, de que ditadura faz bem à China. "O que teria acontecido se a China tivesse um governo democraticamente eleito nos últimos dez anos? Ela estaria no lugar que está? Eu duvido", afirmou o economista. O’Neill também disse, em relação à hipótese de uma rápida democratização da China, que "dar-lhes todas estas liberdades com aquela imensa disparidade de renda provavelmente é perigoso"

Acha que o fato de que 2005 foi um ano espetacular para os negócios capitalistas em quase todo o mundo contribuiu para tornar mais alegre e celebrativo o clima do encontro. "Os participantes tiveram um ano espetacular e, aqui em Davos, estão se preparando para outro ano espetacular". O economista acrescentou que pôde presenciar muitas negociações empresariais, em clima de grande animação. E nas pequenas coisas, também se sentiu a mudança de ventos: aumentou o número de gravatas nas sessões e, na programação da festa final de gala no sábado, em homenagem à Índia, o traje formal era expressamente recomendado