Foto: Arquivo/O Estado

Alunos não encontram os livros solicitados pelo professor que, por sua vez, não localiza os volumes necessários ao preparo de aulas.

Imagino uma bibliotecária que tenha recebido uma tarefa difícil: ordenar livros por assunto e idade nas estantes da biblioteca da escola. Ela havia tentado há alguns meses fazê-lo, mas hesitara já no primeiro volume. Por isso, sabe que a tarefa é difícil. Mas chega um momento em que não pode mais fugir. Pilhas de volumes ocupam desordenadamente os espaços da biblioteca. Os alunos não encontram os livros solicitados pelo professor que, por sua vez, não localiza os volumes necessários ao preparo de aulas para os alunos. A ciranda da desorganização começa a rodar. Motivada a ajudar, ela não encontra nem a si mesma entre tantos livros espalhados. Ela, que acreditava conhecer em detalhe e minúcias todo o acervo.

Respira fundo e pega o primeiro volume da pilha mais próxima. Lê: Viagem ao redor do mundo em 80 dias, de Júlio Verne. Esse é fácil: ficção científica. Por quê? Se os inventos e viagens hoje se confirmaram e mesmo foram ultrapassados não há mais o desconhecido e o fantástico? Em que prateleira o colocará? Aventura, clássicos? O que sabe é que pertence ao acervo juvenil. Como? Isso era há décadas. Trata-se de livro para adultos com linguagem que o adolescente de hoje desconhece. As prateleiras sobem e descem ante seus olhos e o livro continua em suas mãos. Na dúvida, escolhe outro volume.

Minerações, de Bartolomeu Campos Queirós. Vai para a estante das crianças. Cor, volume, ilustrações identificam o livro infantil. Mas, e a linguagem? E a profundidade semântica das palavras e da reflexão? Não. Não: sobe o volume para os adolescentes. Mas eles vão considerar as ilustrações ?coisas de criança?! Deixa de lado.

Descobre numa das pilhas mais à esquerda um livro pequeno, com aspecto infantil, do escritor James Garner, intitulado Contos de fadas politicamente corretos, e o toma nas mãos com a certeza que a melhor prateleira é a das séries iniciais, em que esse gênero narrativo é lido e apreciado. Mas a rápida leitura de algumas páginas aponta dificuldades de compreensão, muitas alusões, ironia e certa dose de situações obscenas, não condizentes com o estágio do leitor iniciante. Abandona mais esse volume.

Ao canto, uns sobre os outros, vários livros de contos (portugueses, russos, espanhóis, brasileiros, persas) da editora Landy e novos obstáculos. Algumas narrativas trazem a marca do conto de tradição, outros, nem tanto. Desafios à leitura acomodada e repetitiva, fogem à linguagem habitual dos contos adaptados e facilitados que as crianças costumam ouvir. Mesmo assim, corre o risco: alinha esses textos na prateleira dos contos de tradição, mas retira da etiqueta a indicação de faixa etária. São narrativas para qualquer idade.

A pedir sua atenção está o livro Fábulas fabulosas, de Millôr Fernandes. O primeiro impulso é colocá-lo entre as mesmas narrativas de tradição, herdadas dos primeiros fabulistas, como Esopo, Fedro, La Fontaine, os textos de Calila e Dimna. E novamente a leitura constata que as referências a fatos e comportamentos do mundo adulto afastam o livro dessa estante. Por que são as fábulas uma leitura infantil? Por causa do moralismo? Indaga muito intimamente se as fábulas não se referem sempre a comportamentos humanos em qualquer fase da vida. E o exemplar vai fazer companhia a outros numa nova pilha que se forma: a da controvérsia.

Assim, de livro em livro, ela pode constatar o quanto a volúpia de classificação e ordem encontra com freqüência indesejada sérios obstáculos na ação simples de ordenar livros nas estantes. Também eu constato o quanto resulta discutível e precária a tentativa, muitas vezes bem intencionada, de subordinar a indicação de leituras, principalmente para crianças e adolescentes, a uma série de princípios, regras e qualidades, estabelecidos com antecedência.

Quando precisamos definir a distribuição dos livros por leitores reais, verificamos o quanto desconhecemos os interesses e a efetiva capacidade de leitura compreensiva das pessoas a quem indicamos essas obras. No momento, também questionamos a validade dos princípios e atributos considerados válidos para essas indicações. É mais freqüente vermos confrontada e destruída nossa pretensa coleção de características dos escritos, relacionada com a idade dos leitores, do que colecionarmos sucessos de indicação.

Por isso, quando sou solicitada a indicar livros para uma pessoa, para uma faixa etária, para um determinado nível escolar, hesito, questiono, duvido. Percebo que se abala toda uma construção de crenças e atributos. É, talvez, a tarefa mais difícil de todo o trabalho para a formação de leitores. No entanto, quando acerto, a mais cobiçada das recompensas é o entusiasmo do leitor que, ao final da leitura, demonstra ter compreendido e apreciado o texto sobre o qual se debruçou horas a fio.

Sei, ao final, que, apesar da hesitação e do temor, é possível levar a bom termo essa prática. Sei que os princípios devem passar por revisões constantes. Aprendi, e me consolo com isso, que os livros bons vão ficar entre estantes e pilhas desordenadas. E que a tarefa a que me propus não será cumprida em tempo algum.