Dez mil índios guarani-kaiowás de aldeias do sul do Mato Grosso do Sul declaram-se cansados de esperar pelos recursos do Fome Zero. Saíram, como fazem os brancos, em protesto pelas estradas e misturaram questões outras à sua motivação de protestar: querem mais pressa na demarcação das terras indígenas e pedem providências para acabar com “privilégios” de alguns caciques que têm mais terras do que deviam: “São poucos com muita terra e a maioria com pouca ou nenhuma área”, explicaram. Em outras palavras, índios, que eram donos de todo o largo horizonte brasileiro, também estão em campanha pela reforma agrária, como os caras-pálidas do MST e quejandos.

Assim, pressionado até pelos nativos, nove meses depois de ter lançado sua obra-prima, o governo Lula – que repetiu à exaustão a máxima segundo a qual “quem tem pressa come cru” – retoca o programa Fome Zero no embalo da “evolução” imaginada pelo marqueteiro Duda Mendonça, o mesmo da campanha eleitoral paz e amor. Não deu certo até aqui, mas dará: uma guinada de 180 graus cria novas expectativas e empurra o sonho de milhões para um pouco mais à frente. Na estratégia montada, vem morte lenta aos ministérios de Assistência Social e Segurança Alimentar e, por conseqüência, de seus titulares ministros até aqui pouco produtivos. No lugar surge uma estrutura com o status de secretaria-executiva, ligada diretamente à Presidência da República, que é para dar mais credibilidade ao trabalho. Tudo o que é social entra ali, sob nova rubrica, enquanto desaparecem nomes conhecidos como Bolsa-Alimentação, Bolsa-Escola, Cartão-Alimentação, Vale-Gás e Pet – este, menos conhecido, destinado à erradicação do trabalho infantil.

Números, faz muito tempo, fascinam o Planalto. E mais, se já em franca construção da estrada da reeleição de Lula-lá: com a mudança, além da correção de rumos, a ação social do governo salta de 7 milhões de famílias beneficiadas para dez milhões. E as famílias carentes passam a receber, também de forma unificada, mais do que recebiam até aqui: R$ 83,00 é a nova marca, conforme a promessa da “evolução”. Não se entendeu exatamente como, mas o governo garante que, com isso, os investimentos nessa área também crescerão, saltando de R$ 5,3 bilhões para R$ 7 bilhões.

Não é a multiplicação dos pães, nem a dos peixes, mas a correção se fazia necessária. Poucos foram os que, mesmo comprometidos até a medula com o novel governo, ousavam sair em defesa de sua ação social, até aqui mais discurso de ação e atropelada por uma série de contradições. Até frei Beto, conselheiro pessoal do presidente, deitou falação dias atrás, inconformado com o desrespeito aos ditos “direitos animais” das pessoas. Agora a coisa vai. Ou arrebenta.

Antes, outro conselho. Este brota do sempre professoral ministro das Finanças, Antônio Palocci. Chega de reclamação. A hora é de negociação. Negociar salários, pedir desconto e, ainda por cima, crédito. Crédito bom, barato e fácil, grudado nos sindicatos e na folha de pagamento. O conselho vale até para aposentados que vivem reclamando contra a alta dos remédios camuflada numa malsucedida campanha de barateamento de xaropes básicos. Por conta da nova ordem, os funcionários do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal em greve (bem na hora do circo, perdão, do financiamento fácil a eletrodomésticos!) querem, além de aumento salarial, participação nos lucros… coisa com a qual o pessoal da previdência, das escolas e dos hospitais nem consegue sonhar. Isonomia às favas, como diriam os juristas.

Preste bem atenção: se lá na frente acontecer algum imprevisto, coisa como outro insucesso com os programas sociais, chame-se o Duda outra vez. Afinal, evoluir é o destino das espécies. E seguindo o caderninho da sístole-diástole, reabram-se ministérios especiais para esparramar o que agora, no insucesso, é concentrado. Não pode a memória nacional querer o cumprimento literal do discurso de posse. Ou – com respeito aos índios reivindicantes – do descobrimento.