Na tarde gelada e cinzenta desta quarta-feira, dia em que o papa Bento XVI chegou a São Paulo, havia um clima diferente no Largo São Bento. No início da tarde não eram muitos os fiéis presentes. Estavam lá apenas os que queriam ter certeza de que veriam Bento XVI bem de perto.

continua após a publicidade

O cabeleireiro alagoano Jones da Silva, 43 anos, fez uma viagem de três dias entre maceió e São Paulo para resolver "uns problemas" e considerou a coincidência com a visita do papa uma verdadeira graça. "Vou aproveitar o fato de estar perto dele para pedir tudo para todos", contou, pendurado na grade que separava o público do mosteiro.

No meio da tarde, já não era possível se deslocar entre a multidão. O ambulante Jeremias Gomes, 45 anos, nem católico é. Testemunha de Jeová, passava pelo Largo São Bento carregando duas caixas de maçã sobre um carrinho de metal. Parou, deu uma olhada e, quando viu, já não tinha mais como se mexer. "Estou aqui, não dá para sair e não me custa ficar.

A proximidade forçada pela multidão acabou unindo alguns fiéis. Ali, no meio da aglomeração, não fazia muito frio. O guarda-chuva de um abrigava outro menos prevenido. Bolachas e balas eram compartilhadas. Alguns começavam a cantar uma música conhecida entre os católicos. A alguns metro dali, um grupo fazia a segunda voz, como se aquilo tivesse sido ensaiado. Pais-nossos e ave-marias começavam de um lado, iam ecoando e chegavam a uma outra ponta da multidão.

continua após a publicidade

Um grupo de senhoras se reuniu, rezando ave-marias, com o objetivo de acalmar a multidão. "Queremos que hoje não haja tumulto. Queremos que os corações se unam", disse uma delas, a irmã franciscana Rita Inês dos Anjos. Ela contou que já se sentia emocionada pela visita do papa há alguns dias. "Estamos aqui cheios de fé, cheios de ardor. O papa representa a paz para nós e para o Brasil.

Ao lado de gente simples e fiéis fervorosos, muitos deles carregando terços, cruzes e medalhas, estavam também alguns personagens excêntricos. Conhecido como "rei das embaixadas", o alagoano Manoel da Silva, o Zaguinha, 55 anos, vestia uma roupa verde e amarela, carregava uma bola de futebol e uma imagem de nossa senhora aparecida de 1,66 metro amarrada nas costas. A imagem foi feita em isopor por um carnavalesco

continua após a publicidade

Na última visita de João Paulo II ao País, Zaguinha prometeu a si mesmo ver de perto o próximo papa que viesse ao Brasil. Ele acreditava que talvez Bento XVI nem sequer o visse – embora fosse difícil não notá-lo na multidão – e acabou confessando um desejo. "Se fosse chamado, faria com prazer as embaixadinhas para o papa.

No fim da tarde, quando esperava-se a chegada do papa a qualquer momento, tanto o Largo São Bento como as ruas próximas estavam repletos de gente. Bandeiras do Brasil, da Argentina e do Chile eram agitadas pelos fiéis. Uma faixa, escrita em alemão, pedia ao papa uma palavra aos sem-teto.

Nos edifícios próximos, pessoas amontoavam-se nas janelas tentando enxergar alguma coisa. Apesar do fato de as palavras do papa tenham durado apenas cerca de dois minutos, os que esperaram tanto sentiram-se recompensados. "Valeu a pena, Santopadre", gritava alguém no meio da multidão.