O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse que seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deveria ter iniciado o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) no primeiro dia do primeiro mandato, em 2003. A crítica foi feita em entrevista à Rádio Gaúcha nesta sexta-feira (13), em resposta a uma pergunta sobre perspectivas de sucesso do PAC. Segundo Fernando Henrique, Lula herdou o Plano de Eixos de Desenvolvimento e todo um sistema de gestão no Ministério do Planejamento e, por não ter levado os programas adiante, perdeu quatro anos. "Agora vão tentar reorganizar", observou.

Fernando Henrique Cardoso também acusou o governo atual de lançar programas e ir para a televisão fazer marketing tratando projetos que estão no papel como se fossem realidade. "O que é o PAC? Um conjunto de projetos. Vou torcer para que faça. Mas por enquanto (não fez) nada, zero", comentou. "Ficar no Cabo Canaveral lançando foguete é muito mais fácil do que fazer as coisas", ironizou.

Falta decisão

Na mesma linha, Fernando Henrique Cardoso sustentou que "está faltando ao governo atual a decisão de enfrentar" as reformas trabalhista, tributária e política. O ex-presidente lembrou que Lula poderia ter retomado a proposta que autorizava patrões, sindicatos e empregados a negociarem flexibilizações, sem cortes de direitos, nas relações trabalhistas, aprovada na Câmara e emperrada no Senado, ou tirar a reforma fiscal do papel. "Sem o empenho do governo não passa nada", ressaltou. "Nessa matéria estamos perdendo tempo". Fernando Henrique também defendeu a adoção do sistema distrital na reforma política.

Elogio e mea culpa

Em meio às críticas, o ex-presidente também reservou um espaço para elogiar Lula por fazer um governo de continuidade, sem mudanças estruturais na política econômica. "Ele teve o bom senso de não mudar", comentou.

Ao ser lembrado que Lula voltou a comparar as duas gestões quanto disse aos prefeitos, na terça-feira, que o País poderia estar mais desenvolvido se seu antecessor tivesse feito a metade do que fez o atual governo, Fernando Henrique Cardoso lembrou que há coisas acontecendo hoje que foram plantadas "lá atrás", algumas antes mesmo de seu governo, iniciado em 1995. "Se ele lembrasse o que o partido dele me atrapalhou para tentar endireitar o Brasil, faria um mea culpa e diria ‘olha, poderíamos ter avançado muito mais se o PT não tivesse atrapalhado tanto’", comentou.

O ex-presidente explicou a popularidade de Lula mais por aspectos sociológicos do que políticos. "E economia vai bem em todo o mundo", observou. "A população não presta atenção no dia-a-dia, só fica verificando que a vida vai melhor", afirmou, lembrando que também teve popularidade alta em circunstâncias semelhantes, que caiu quando enfrentou crises financeiras internacionais.

PSDB

Durante a entrevista, Fernando Henrique Cardoso não limitou suas críticas a Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente atribuiu ao seu próprio partido a culpa pela derrota eleitoral de 2006, quando Geraldo Alckmin não evitou a reeleição do petista. "Não houve uma proposta nítida que dissesse que nós somos diferentes, defendemos isso e isso, queremos tais coisas", avaliou. "Nem a privatização fomos capazes de defender", destacou, afirmando que teria sido muito simples ir à televisão e mostrar ao eleitor as vantagens da multiplicação dos celulares e da criação de empregos na Vale do Rio Doce, entre outros benefícios da venda das estatais.

"Privatizamos o que precisava ser privatizado, foi um êxito e nós não dissemos isso", lamentou. "A culpa é muito mais nossa do que da população". O ex-presidente se comprometeu a trabalhar para que seu partido esteja unido e tenha o que dizer ao País em 2010. "O PSDB tem dois anos para se organizar melhor", reiterou. "A vitória (na próxima eleição presidencial) passa a ser fundamental para a própria sobrevivência do PSDB como partido unido e capaz de dar sua contribuição à sociedade brasileira".