Esqueçamo-nos de que, à força de repetir, o desejo de um feliz Natal passou a ser uma expressão automática, esquecida de seu verdadeiro sentido. Não obstante, na maioria dos lares em todo o mundo hoje é um dia de festa, de alegria.

O costume tem, como causa remota, o nascimento de um menino pobre, numa manjedoura, em Belém, cidade hoje disputada por judeus e muçulmanos, no Oriente Médio. O desejo de felicidades que as duas palavras significam foi o que nos augurou o menino recém-nascido, que cresceu e nem chegou à maturidade, sendo morto, pregado numa cruz, porque queria o bem de todos e mudanças sociais. Que não mais existisse opressão de povos sobre povos e que houvesse igualdade entre os homens.

Neste dia 25 de dezembro é preciso haver abstração para que seja um feliz Natal. Precisamos fechar os olhos para os males que nos cercam, quando não nos atingem pessoalmente. Hoje, enquanto nos encantamos com nossas crianças estreando seus novos brinquedos, há milhares de outras que não têm com o que brincar. E lá, onde nasceu Jesus, crianças brincam com armas de guerra. E algumas até matam com elas. Ou por elas são mortas.

Hoje mesmo, aqui mesmo, neste Brasil que tanto amamos e tanto espancamos, nas favelas e nos cortiços – as nossas manjedouras -, não há o que comer. Não há bolos e guloseimas e falta até um pedaço de pão para matar a fome de milhares de crianças e de suas famílias.

Mas, pelo menos em nosso País, as coisas estão melhorando. Se não de verdade, pois o desemprego se mantém em altos patamares e são milhares os trabalhadores que não têm com o que sustentar suas famílias, pelo menos nas estatísticas, aqueles números que são anunciados com otimismo, às vezes com euforia, mesmo que omitam os males que ainda restam.

Temos um governo bem intencionado e motivado para resolver as causas sociais. Se pode resolvê-las, quem sabe? Se sabe resolver, uns dizem que sim e outros que não. Vale a intenção. Na dúvida, entretanto, é preciso que a própria sociedade, nós mesmos, organizando-nos dentro da lei e da ordem, sob a tutela das instituições, cumpramos o nosso dever. Mas não nos limitemos a só isso. É necessário que em ações isoladas ou através de movimentos voluntários façamos com que o próximo Natal, e os que se lhe seguirão, tenham menos excluídos da festa.

Neste de 2004, parece evidente que as ações de ajuda aos mais necessitados, realizadas pela própria sociedade, por organizações voluntárias, aumentou. E que se multiplique ano após ano, pois a nossa miséria parece um mal sem fim. E que, se não se multiplica, se repete há décadas, séculos.

Certamente, Jesus, que hoje aniversaria, lá onde está, como filho de Deus, como crêem milhões, ou como um homem santo, como preferem outros, está desejando isso para a humanidade. E chora ao ver a cidade onde nasceu, os lugares que pisou e as ladeiras por onde carregou sua cruz fustigados pelo mal, recendendo a ódio, incompreensão e transformado num palco de lutas fratricidas, sofrimentos e mortes. E para nós, que aqui não temos guerras, deve estar desejando que travemos a nossa, contra as desigualdades, a exclusão e a miséria que atinge a tantos de nossos irmãos. E a milhares de crianças, inocentes como as nossas, que não estão estreando a nova bicicleta ou a nova boneca.