Família recebe restos mortais de desaparecido durante a ditadura militar

São Paulo – Em uma pequena cerimônia no auditório da Procuradoria da República foi entregue, hoje (10) pela manhã, a urna com os restos mortais de Flávio Carvalho Molina ao irmão dele, Gilberto Molina, engenheiro civil e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais. O ato aconteceu quase 34 anos após a morte de Flávio, militante do Movimento de Libertação Popular (Molipo), grupo que agia contra o regime da Ditadura Militar (1964-1985).

Flávio Molina morreu sob tortura em uma sala do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), quando tinha 24 anos, em novembro de 1971. "Depois de tantos anos poder, enfim, prestar-lhe essa última homenagem traz um sentimento de alívio à nossa família", desabafou Gilberto Molina.

O engenheiro contou que a família sofreu muito com o desaparecimento de seu irmão. Só oito anos mais tarde surgiu a informação de que ele fora torturado em um sala do Dói-Codi e enterrado com o nome falso de Álvaro Lopes Peralta.

Oficialmente, o governo havia informado que ele fora assassinado. O corpo da vítima foi enterrado clandestinamente numa vala coletiva no cemitério de Perus, na zona oeste da cidade de São Paulo. Apenas em 1990 foram feitas as primeiras escavações para a exumação. Os fragmentos encontrados passaram por oito exames de DNA, alguns deles realizados fora do país, na Inglaterra, Colômbia e Argentina. O atestado que finalmente identificou os restos de Flávio foi feito pelo laboratório Genomic, de São Paulo, com resultados divulgados no último dia 2 de setembro.

Gilberto Molina partilhava dos ideais do irmão e também chegou a ser detido. "No meu caso tinha uma participação na Ação Popular, no Rio, não era luta armada". Os integrantes da Molipo tinham uma ação mais agressiva contra o regime governamental e chegavam inclusive a fazer treinamentos de guerrilha em Cuba. Entre os ex-militantes da Molipo está o ex-ministro da Casa Civil, deputado federal (PT-SP), José Dirceu. Ele compareceu hoje à solenidade de entrega dos restos mortais de Flávio, mas não quis fazer declarações.

Durante a cerimônia transmitida uma gravação do Hino Nacional, solicitado um minuto de silêncio e lido um poema da vítima que diz: "Por que alguém, mais dia menos dia, fica ausente? Brincando com o coração da gente, tirando a nossa alegria… Por que alguém, mais dia menos dia, deixa tudo? Deixando também o coração mudo, de tanta melancolia…"

A urna com os restos mortais de Flávio foi levada para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, onde será realizada nova cerimônia. O sepultamento está marcado para às 11h de amanhã, no cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo.

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