Não teria dado em nada o episódio do jornal norte-americano que se ocupou de assunto menor, semana passada, caso o Planalto não tivesse assumido o papel de porta-voz de fatos que diz não terem importância. Mas a partir do cancelamento do visto do jornalista William Larry Rohter Junior (o que, na prática, configura sua expulsão do País), a hipotética simpatia do presidente Lula a tragos e garrafas assume outra dimensão e, com certeza, correrá o mundo. A equipe do presidente esqueceu que, ao tentar esconder um pretenso fato sumindo com quem o propaga dará sobrevida muito mais longa às alegadas mentiras que tenta apagar. Sempre que alguém falar da expulsão do jornalista, já de per si um fato grave, falará dos motivos – uma bobagem que, entretanto, incomoda mais que todos os demais ingentes problemas que ostentamos mundo afora.

Já de início houve exagero na reação do Planalto, contrariando inclusive conselho do próprio presidente Lula, que pediu prudência e discrição. Não se reage a fatos como esses com o fígado, teria dito ele a seus assessores mais próximos. Pois tudo foi feito com o fígado e muito estardalhaço, a começar pela nota oficial emitida pelo governo, exageradamente longa e minuciosa, além de ameaçadora e nada serena, passando pela ação, em terra estrangeira, do embaixador brasileiro e culminando com o cancelamento do visto do jornalista autor do artigo publicado pelo jornal The New York Times que até meados da semana sequer tinha comentado o assunto.

Provavelmente o governo Lula queira usar o episódio para fins outros. Como, por exemplo, mostrar que não está para brincadeiras no campo das opiniões, imprensa e liberdades individuais. Qualquer outro correspondente estrangeiro – e mesmo os jornalistas brasileiros – passará a refletir sobre cancelamentos e castigos sempre que tiver assunto polêmico sobre a mesa. E isso desserve à liberdade de expressão, alhures defendida com palavras sempre bonitas e agradáveis de se ouvir. Mas o desdobramento de uma ação como essa pode ir bem além. Hoje um jornalista é expulso por ter ousado falar do comportamento pessoal do presidente – uma pessoa pública e, sem sombra de dúvida, com sua privacidade reduzida -, ante a alegação de que isso detrata o Brasil lá fora. E que dizer de outros fatos que, divulgados lá fora, também detratam o País com a força de verdades incomparáveis a essa de uma reles opinião sobre garrafas e copos?

Com o tempo, o governo de Lula entenderá – e aí já será tarde – que agiu precipitadamente ao cancelar o visto de um jornalista que aqui não está de graça nem dissociado do órgão ao qual presta serviço. De coisas muito mais sérias e íntimas de seus governantes se ocupa a imprensa americana, sem falar da inglesa e outras do chamado Primeiro Mundo. Ainda estão bastante frescas na memória as peripécias sexuais do presidente Bill Clinton, que a imprensa de seu país descreveu com a crueza de detalhes que quase lhe custaram um impeachment. Apesar de ser assunto seu, cometido entre quatro paredes, nem assim ele alegou prejuízo à imagem dos EUA para tentar calar jornais, rádios e televisões. Sustentou ser mentira até que, pelas evidências, foi obrigado a admitir o que tentava evitar.

A verdade é que, neste caso, faltou um pouquinho de fairplay ao Planalto, que demonstrou tê-lo de sobra quando o vice-presidente da República, José Alencar, rotula o governo a que serve de “irresponsável”. Isso complica um pouco mais o nosso relacionamento com países como os EUA, já atrapalhado com os recentes episódios vividos em portos e aeroportos, na recepção de turistas dispostos a gastar dólares aqui. Se o presidente Lula não bebe, por qual motivo fazer a tempestade maior do que ela é? A explicação pode estar nas outras fragilidades do governo que aí está, e contra as quais pouco ou nada resta fazer. Ou nesse vezo petista, outras vezes demonstrado, de aconselhar o noticiário apenas de fatos positivos.

Como disse a jornalista Dora Kramer: “Só num cenário onde a autoridade se apresenta desorganizada, um governo considera-se agredido na honra e na soberania por fuxicos ao léu, mas acha normal ser chamado de irresponsável pela segunda figura na escala de representação da República”.